Em Julho de 1525, Balthasar Hubmaier, um pastor com ideias Anabatistas "moderadas", escreve uma carta ao conselho de Zurique pedindo uma discussão pública sobre batismo entre ele e Zuínglio, a quem nessa altura ainda chamava de "querido irmão".
Vem o debate, então, onde Zuínglio defende o batismo de crianças, e Hubmaier se opõem.
É interessante notar que Zuínglio em certa altura se vê oscilando entre ideias mais "radicais" da Reforma, aludindo a uma 'reforma progressiva', com mudanças moderadas na liturgia da missa, etc e a prática Católica. Sobre batismo Zuínglio confessou ter abraçado ele mesmo "o erro" de que crianças não deveriam ser batizadas "até que elas cheguem à idade da responsabilidade." Hubmaier afirmou durante os julgamentos:
"Sim, você assim afirmou, escreveu e pregou abertamente do púlpito - várias centenas de pessoas ouviram isto de sua boca." E também: "No ano de 1523 na rua Zurichgraben eu pessoalmente confrontei-o com as Escrituras sobre o batismo. Você disse que eu estava certo, que crianças não deveriam ser batizadas até que tivessem sido instruídas na fé."
No dia 14 de Dezembro, o arquiduque Fernando da Áustria pediu oficialmente a extradição de Hubmaier, que se encontrava preso em Zurique. Isto seria morte na certa; Fernando era Católico e atribuíra injustamente um levante na região de Waldshut a Hubmaier. Hubmaier então prepara uma retratação para o conselho de Zurique, negando sua posição sobre o batismo. Depois de ler a retratação para o conselho, Hubmaier é obrigado a lê-la nas principais igrejas de Zurique, começando em Fraumünster. No culto de manhã, após a pregação de Zuínglio, levado por guardas, Hubmaier foi chamado a ler sua retratação. Hubmaier rabiscou umas notas, contudo, antes de ir ao púlpito.
"Ó, que angústia e dores de parto eu sofri esta noite a respeito das afirmações que fiz. Digo aqui e agora que eu não posso e não irei me retratar." A seguir, defendeu o batismo do crente como um ensino do Novo Testamento. Zuínglio interrompeu-o com raiva. Guardas vieram apreender o "criminoso" e o jogaram na prisão de Wellenberg. Foi torturado várias vezes. Durante as sessões de tortura, Zuínglio ordenava que Hubmaier chamasse os Anabatistas de anti-batistas. Durante 3 meses foi submetido a tortura e interrogatório na Wasserturm, ou torre d'água.
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Wednesday, June 15, 2011
As pouco conhecidas perseguição e violência dos Reformadores - parte 1
O Conselho de Zurique organizou uma discussão pública sobre a questão do batismo de adultos ou de crianças para o dia 6 de Novembro de 1523. De um lado, Anabatistas incluindo Conrad Grebel, Mantz, Blaurock, e Michael Sattler, que foram anteriormente presos no castelo de Grüningen e posteriormente em Zurique. Do outro, Zuínglio e seus amigos. Quatro homens foram escolhidos para presidir a disputa, entre eles Dr. Sebastian Hofmeister e Vadian de St. Gall.
Depois dos argumentos, as coisas pioraram para os Anabatistas (também chamados de os Irmãos). Claro, o conselho de Zurique deu vitória a Zuínglio. Grebel, Mantz e Blaurock voltaram para a prisão. A sentença saiu no dia 18 de Novembro: "por causa de seus anabatismos e suas condutas impróprias, devem permanecer na torre em uma dieta de pão e água" e ninguém poderia visitá-los. Durante o inverno, mais Anabatistas foram presos e levados à mesma prisão.
Houve um novo julgamento nos dias 5 e 6 de Março de 1526, onde estes líderes Anabatistas foram condenados a prisão perpétua. E qualquer um que fosse visto re-batizando deveria ser morto por afogamento.
Duas semanas depois de presos, os guardas esqueceram a janela da torre aberta e estes líderes Anabatistas fugiram da prisão.
(fonte: Anabaptist Portraits, por John A. Moore)
Depois dos argumentos, as coisas pioraram para os Anabatistas (também chamados de os Irmãos). Claro, o conselho de Zurique deu vitória a Zuínglio. Grebel, Mantz e Blaurock voltaram para a prisão. A sentença saiu no dia 18 de Novembro: "por causa de seus anabatismos e suas condutas impróprias, devem permanecer na torre em uma dieta de pão e água" e ninguém poderia visitá-los. Durante o inverno, mais Anabatistas foram presos e levados à mesma prisão.
Houve um novo julgamento nos dias 5 e 6 de Março de 1526, onde estes líderes Anabatistas foram condenados a prisão perpétua. E qualquer um que fosse visto re-batizando deveria ser morto por afogamento.
Duas semanas depois de presos, os guardas esqueceram a janela da torre aberta e estes líderes Anabatistas fugiram da prisão.
(fonte: Anabaptist Portraits, por John A. Moore)
Sunday, June 05, 2011
Bad theatre for children
Today we went to see "At Nightfall" at the Ottawa International Children's Festival. Now that's bad theatre. Nothing happens in the story. It's pure non-sense. I couldn't stand it anymore and we left after 20 minutes. I want my money back but I guess it's in the fine print somewhere that I can't have it. Anyways, whoever wrote this thing, geez, couldn't you write something where there's action and stuff happening? Whoever approved this piece is also an accomplice. By the Sursaut Dance Company, Serbrooke, Quebec.
Thursday, June 02, 2011
Perfis dos primeiros Anabatistas: Hans Denck - 6
(Leia aqui a parte 5)
Hans Denck mudou de cidade para cidade fugindo de perseguições ou sendo simplesmente expulso. (Isto era comum na época e aconteceu não só com Denck como com vários outros reformadores e Anabatistas) Cansado e doente, mesmo tendo ainda menos que 30 anos, Denck escreve em 1527 a Oecolampadius, líder reformado em Basel na Suíça, pedindo descanço e exílio. Oecolampadius aceita mas pede uma descrição formal por escrito de suas convicções religiosas e de como tinham mudado. Oecolampadius publicou os dois artigos de Denck dois anos depois.
Denck começa sua declaração de fé assim: "Estou de todo o coração disposto a ver toda desgraça e vergonha, merecidas ou imerecidas, cairem sobre mim, sob a única condição de que Deus seja assim honrado, pois ele é digno de toda honra e amor. Contudo, desde que comecei a amá-lo, caí no desfavor de muitas pessoas... Enquanto eu crescia no zelo pelo Senhor, as pessoas cresciam no seu zelo opondo-me... Fui caluniado e acusado tão fortemente por alguns ... que é difícil, mesmo para um homem tenro e humilde de coração, se conter."
Um comentário do livro do profeta Miquéias datado de 1532 foi atribuído a Denck. "Uma pessoa nunca deve fazer uma outra sofrer por causa da sua fé." Na conclusão lemos: "Mesmo em coisas externas ... como o profeta diz ... entre todos os povos cada um deve poder andar no nome do seu deus ... Ninguém deve privar o outro de sua liberdade - seja bárbaro, Judeu, ou Cristão ... Dessa forma, que nós desfrutemos dos dons de Deus em paz."
Hans Denck faleceu aos 27 anos de idade em Novembro de 1527 da peste bubônica.
Hans Denck mudou de cidade para cidade fugindo de perseguições ou sendo simplesmente expulso. (Isto era comum na época e aconteceu não só com Denck como com vários outros reformadores e Anabatistas) Cansado e doente, mesmo tendo ainda menos que 30 anos, Denck escreve em 1527 a Oecolampadius, líder reformado em Basel na Suíça, pedindo descanço e exílio. Oecolampadius aceita mas pede uma descrição formal por escrito de suas convicções religiosas e de como tinham mudado. Oecolampadius publicou os dois artigos de Denck dois anos depois.
Denck começa sua declaração de fé assim: "Estou de todo o coração disposto a ver toda desgraça e vergonha, merecidas ou imerecidas, cairem sobre mim, sob a única condição de que Deus seja assim honrado, pois ele é digno de toda honra e amor. Contudo, desde que comecei a amá-lo, caí no desfavor de muitas pessoas... Enquanto eu crescia no zelo pelo Senhor, as pessoas cresciam no seu zelo opondo-me... Fui caluniado e acusado tão fortemente por alguns ... que é difícil, mesmo para um homem tenro e humilde de coração, se conter."
Um comentário do livro do profeta Miquéias datado de 1532 foi atribuído a Denck. "Uma pessoa nunca deve fazer uma outra sofrer por causa da sua fé." Na conclusão lemos: "Mesmo em coisas externas ... como o profeta diz ... entre todos os povos cada um deve poder andar no nome do seu deus ... Ninguém deve privar o outro de sua liberdade - seja bárbaro, Judeu, ou Cristão ... Dessa forma, que nós desfrutemos dos dons de Deus em paz."
Hans Denck faleceu aos 27 anos de idade em Novembro de 1527 da peste bubônica.
Perfis dos primeiros Anabatistas: Hans Denck - 5
(Leia aqui a parte 4)
Hans Denck ficou aborrecido com o mau uso da Bíblia na sua época. Assim, publicou um livreto. O título é bem grande: "Aquele Que Verdadeiramente Ama a Verdade ... O Temor de Deus é o Princípio da Sabedoria"
"Até os vários membros de um só partido político discordam às vezes" ele observa "e isso não aconteceria se a pessoa prestasse atenção no único professor, o Espírito Santo. Para seu ensino o Espírito Santo dá testemunho claro... mas para aqueles que não têm isto selado pelo próprio Espírito de Deus, parece ser contraditório em várias partes...
"Duas passagens das Escrituras opostas devem ser ambas verdadeiras. Uma estará contida na outra assim como o menor está no maior, como o tempo na eternidade, como a finitude na infinitude. Aquele que desiste das passagens opostas das Escrituras e não consegue achar sua unidade carece do chão da verdade. "
O sétimo paradoxo contrasta "Eu não vim julgar o mundo mas salvá-lo" (João 12) com "Eu vim julgar o mundo" (Romanos 9). O oitavo, "Se eu dou testemunho de mim mesmo, meu testemunho não é verdadeiro" (João 5) com "Se eu dou testemunho de mim mesmo, meu testemunho é verdadeiro" (João 8). O décimo primeiro, "Pois quem pode resistir a sua vontade?" (Romanos 9) com "Vocês sempre resistiram ao Espírito Santo" (Atos 7). O décimo segundo, "Todo aquele que pede recebe" (Mateus 7) com "Vocês pedem e não recebem" (Tiago 4).
O décimo quarto paradoxo contrasta "Pregai o evangelho a toda a criatura" (Marcos 16) com "Não joguem pérolas aos porcos" (Mateus 7). O décimo sexto, "Eu não ficarei com raiva para sempre" (Jeremias 3) com "Estes irão para a punição eterna" (Mateus 25). O próximo, "Deus quer que todos sejam salvos" (1 Timóteo 2) com "Poucos são escolhidos" (Mateus 20). E o próximo, "Deus não tenta ninguém" (Tiago 1) com "Deus tentou Abraão" (Gênesis 22). O décimo segundo, "Ninguém viu Deus" (João 1) com "Eu vi o Senhor face a face" (Gênesis 32). O vigésimo quinto, "Não julgueis para que não sejais julgados" (Mateus 7) com "julgai segundo a reta justiça" (João 7). O último, "Deus diz, 'Eu endurecerei o coração do Faraó'" (Êxodo 4) com "Faraó endureceu seu coração" (Êxodo 8 e 9).
E cito novamente outro escrito seu: "Há certos irmãos que pensam que eles entenderam tudo do evangelho, e seja quem for que não disser um 'sim' completamente inclusivo para o que eles dizem é rotulado de o pior dos hereges."
Hans Denck ficou aborrecido com o mau uso da Bíblia na sua época. Assim, publicou um livreto. O título é bem grande: "Aquele Que Verdadeiramente Ama a Verdade ... O Temor de Deus é o Princípio da Sabedoria"
"Até os vários membros de um só partido político discordam às vezes" ele observa "e isso não aconteceria se a pessoa prestasse atenção no único professor, o Espírito Santo. Para seu ensino o Espírito Santo dá testemunho claro... mas para aqueles que não têm isto selado pelo próprio Espírito de Deus, parece ser contraditório em várias partes...
"Duas passagens das Escrituras opostas devem ser ambas verdadeiras. Uma estará contida na outra assim como o menor está no maior, como o tempo na eternidade, como a finitude na infinitude. Aquele que desiste das passagens opostas das Escrituras e não consegue achar sua unidade carece do chão da verdade. "
O sétimo paradoxo contrasta "Eu não vim julgar o mundo mas salvá-lo" (João 12) com "Eu vim julgar o mundo" (Romanos 9). O oitavo, "Se eu dou testemunho de mim mesmo, meu testemunho não é verdadeiro" (João 5) com "Se eu dou testemunho de mim mesmo, meu testemunho é verdadeiro" (João 8). O décimo primeiro, "Pois quem pode resistir a sua vontade?" (Romanos 9) com "Vocês sempre resistiram ao Espírito Santo" (Atos 7). O décimo segundo, "Todo aquele que pede recebe" (Mateus 7) com "Vocês pedem e não recebem" (Tiago 4).
O décimo quarto paradoxo contrasta "Pregai o evangelho a toda a criatura" (Marcos 16) com "Não joguem pérolas aos porcos" (Mateus 7). O décimo sexto, "Eu não ficarei com raiva para sempre" (Jeremias 3) com "Estes irão para a punição eterna" (Mateus 25). O próximo, "Deus quer que todos sejam salvos" (1 Timóteo 2) com "Poucos são escolhidos" (Mateus 20). E o próximo, "Deus não tenta ninguém" (Tiago 1) com "Deus tentou Abraão" (Gênesis 22). O décimo segundo, "Ninguém viu Deus" (João 1) com "Eu vi o Senhor face a face" (Gênesis 32). O vigésimo quinto, "Não julgueis para que não sejais julgados" (Mateus 7) com "julgai segundo a reta justiça" (João 7). O último, "Deus diz, 'Eu endurecerei o coração do Faraó'" (Êxodo 4) com "Faraó endureceu seu coração" (Êxodo 8 e 9).
E cito novamente outro escrito seu: "Há certos irmãos que pensam que eles entenderam tudo do evangelho, e seja quem for que não disser um 'sim' completamente inclusivo para o que eles dizem é rotulado de o pior dos hereges."
Perfis dos primeiros Anabatistas: Hans Denck - 4
(Leia aqui a parte 3)
Uma das grandes qualidades de Hans Denck era a sua capacidade de fazer amigos. Ele era um conciliador por excelência. Conseguia conviver com pessoas de diferentes opiniões, mesmo que muito contrárias às suas. De fato, Hans Denck veio a escrever quase no final de sua breve vida sobre o amor.
Assim, Denck parece ter uma hermenêutica muito mais humana, apesar do "estágio histórico" de sua época. Um pequeno exemplo: Hans escreveu
"Todos os mandamentos, costumes e leis, como foram escritas no Antigo Testamento e no novo, são anulados para um verdadeiro aluno de Cristo (1 Timóteo 1), isto é, ele tem uma Palavra escrita no seu coração, que ele ama a Deus somente ... Ele não despreza o testamento das Escrituras; ao invés ele busca nela com toda a diligência ... Ele retém julgamento daquilo que ele não entende e espera revelação de Deus... "
Uma das grandes qualidades de Hans Denck era a sua capacidade de fazer amigos. Ele era um conciliador por excelência. Conseguia conviver com pessoas de diferentes opiniões, mesmo que muito contrárias às suas. De fato, Hans Denck veio a escrever quase no final de sua breve vida sobre o amor.
Assim, Denck parece ter uma hermenêutica muito mais humana, apesar do "estágio histórico" de sua época. Um pequeno exemplo: Hans escreveu
"Todos os mandamentos, costumes e leis, como foram escritas no Antigo Testamento e no novo, são anulados para um verdadeiro aluno de Cristo (1 Timóteo 1), isto é, ele tem uma Palavra escrita no seu coração, que ele ama a Deus somente ... Ele não despreza o testamento das Escrituras; ao invés ele busca nela com toda a diligência ... Ele retém julgamento daquilo que ele não entende e espera revelação de Deus... "
Perfis dos primeiros Anabatistas: Hans Denck - 3
(Leia aqui a parte 2)
Por volta de 1525 Hans Denck vai para a cidade de Augsburg, que estava dividida entre Protestantes (várias faccções - principalmente Lutero e Zuínglio ) e Católicos. Denck gastou bastante tempo escrevendo durante os 13 meses que ficou ali. Um dos livretos se chamava "A Afirmação de que as Escrituras Dizem que Deus Pratica e Produz o Bem e o Mal".
Hans Denck começa pedindo desculpas por publicar o livro e por falar de Deus de forma tão dogmática:
"Há certos irmãos que pensam que eles entenderam tudo do evangelho, e seja quem for que não disser um 'sim' completamente inclusivo para o que eles dizem é rotulado de o pior dos hereges."
Por volta de 1525 Hans Denck vai para a cidade de Augsburg, que estava dividida entre Protestantes (várias faccções - principalmente Lutero e Zuínglio ) e Católicos. Denck gastou bastante tempo escrevendo durante os 13 meses que ficou ali. Um dos livretos se chamava "A Afirmação de que as Escrituras Dizem que Deus Pratica e Produz o Bem e o Mal".
Hans Denck começa pedindo desculpas por publicar o livro e por falar de Deus de forma tão dogmática:
"Há certos irmãos que pensam que eles entenderam tudo do evangelho, e seja quem for que não disser um 'sim' completamente inclusivo para o que eles dizem é rotulado de o pior dos hereges."
Perfis dos primeiros Anabatistas: Hans Denck - 2
(Leia aqui a parte 1)
O conselho da cidade de Nürnberg começou a brigar com Hans Denck. Assim, chamaram-no para descrever as suas crenças. Depois mandaram-no para os pastores Luteranos, sob o comando de Osiander, para exame. Eis o que eles disseram depois do debate:
"Hans Denck, diretor da escola São Sebaldus, mostrou-se tão hábil que nós chegamos à conclusão que é inútil discutir com ele oralmente... Ele não dá respostas diretas.. [e] tenta elaborar e colorir os pensamentos e ideias da sua mente (As Escrituras nunca falam tão claramente como ele), de forma que qualquer um pode perceber que um outro espírito que não o Espírito de Cristo controla-o." "Ele vem com astúcia e descarta as Escrituras como se fossem inúteis só porque nem todos entendem", reclamam os pastores de Nürnberg, "contudo elas são bastante claras." "Denck disse ... que tem algo nele que resiste a sua maldade ... Até o fim ele insiste que é Cristo. Mas ao mesmo tempo ele nega que ele tenha qualquer fé ... Se ele insiste em chamar a sua fé de não-fé até que seja completamente perfeita (o que nunca acontece nesta vida), ele age de forma contrária a Cristo e toda a Escritura."
O conselho da cidade de Nürnberg começou a brigar com Hans Denck. Assim, chamaram-no para descrever as suas crenças. Depois mandaram-no para os pastores Luteranos, sob o comando de Osiander, para exame. Eis o que eles disseram depois do debate:
"Hans Denck, diretor da escola São Sebaldus, mostrou-se tão hábil que nós chegamos à conclusão que é inútil discutir com ele oralmente... Ele não dá respostas diretas.. [e] tenta elaborar e colorir os pensamentos e ideias da sua mente (As Escrituras nunca falam tão claramente como ele), de forma que qualquer um pode perceber que um outro espírito que não o Espírito de Cristo controla-o." "Ele vem com astúcia e descarta as Escrituras como se fossem inúteis só porque nem todos entendem", reclamam os pastores de Nürnberg, "contudo elas são bastante claras." "Denck disse ... que tem algo nele que resiste a sua maldade ... Até o fim ele insiste que é Cristo. Mas ao mesmo tempo ele nega que ele tenha qualquer fé ... Se ele insiste em chamar a sua fé de não-fé até que seja completamente perfeita (o que nunca acontece nesta vida), ele age de forma contrária a Cristo e toda a Escritura."
Perfis dos primeiros Anabatistas: Hans Denck - 1
Hans Denck nasceu em 1500 e cresceu em Heybach (Habach) na Alta Bavária. Foi um aluno excepcional desde jovem. Recebeu o prêmio "scholasticus" na Universidade de Ingolstadt no sul da Alemanha ao concluir seu Bacharelado aos 19 anos. Foi um expoente nos estudos de Latim e Grego, embora tenha tido amplo conhecimento em ciências diversas.
Denck escreveu: "A justiça de Deus é o próprio Deus." "Pecado é o que quer que seja que se rebele contra Deus, que na verdade é 'nada'... Claro que todos os crentes uma vez foram não-crentes. Aqueles que se tornaram crentes tiveram primeiro que morrer para que depois eles não vivessem para si mesmos como não-crentes fazem mas ao invés viverem para Deus em Cristo."
"Todas as coisas que são por natureza impuras tornam-se ainda mais impuras quanto mais a pessoa tenta lavá-las... Quem tentaria lavar o vermelho dos tijolos, ou o preto do carvão, cujas próprias naturezas são o que são? ... Da mesma forma uma pessoa que por natureza é impura, no corpo e na alma, será lavada inutilmente por fora se ela não começar a ser amaciada e mudada por dentro."
Denck escreveu: "A justiça de Deus é o próprio Deus." "Pecado é o que quer que seja que se rebele contra Deus, que na verdade é 'nada'... Claro que todos os crentes uma vez foram não-crentes. Aqueles que se tornaram crentes tiveram primeiro que morrer para que depois eles não vivessem para si mesmos como não-crentes fazem mas ao invés viverem para Deus em Cristo."
"Todas as coisas que são por natureza impuras tornam-se ainda mais impuras quanto mais a pessoa tenta lavá-las... Quem tentaria lavar o vermelho dos tijolos, ou o preto do carvão, cujas próprias naturezas são o que são? ... Da mesma forma uma pessoa que por natureza é impura, no corpo e na alma, será lavada inutilmente por fora se ela não começar a ser amaciada e mudada por dentro."
Friday, May 27, 2011
Pronunciamento em relação à decisão do STF - Aliança de Batistas do Brasil
( Originalmente publicado em http://www.aliancadebatistas.com.br/page/modules/articles/article.php?id=11 )
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| Pronunciamento em relação à decisão do STF |
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A Aliança de Batistas do Brasil, instituição batista de caráter ecumênico em sua Carta de Princípios proposta no ano de 2005, se propõe a “celebrar a diversidade da vida e da humanidade em todas as suas formas, respeitar as diferenças e promover o diálogo”, assim como também “defender a causa dos empobrecidos e proscritos da sociedade”. Esses anseios se fundamentam em nossa leitura do Evangelho de Jesus Cristo, em seu claro chamamento à causa dos oprimidos, em sua paixão pela liberdade humana e pela plenitude da vida de toda criação. Esses anseios também se fundamentam em nossa tradição batista, marcada historicamente pela defesa da liberdade de consciência de todas as pessoas, em matéria de religião e de civilidade. É com base nestes princípios que a Aliança de Batistas do Brasil, mais uma vez fazendo uso das prerrogativas constitucionais de livre expressão, deseja tornar público o seu posicionamento com relação à decisão do Supremo Tribunal Federal brasileiro (STF) em garantir, de modo unânime, a legitimidade dos direitos civis das uniões estáveis de pessoas do mesmo sexo. Como entidade identificada com a justiça social e com a busca da equidade devida a cada cidadão e cidadã da nação brasileira, desejamos externar nossa satisfação e nosso contentamento com a decisão unânime do STF. Desejamos tornar pública nossa leitura destes fatos, conscientes de que a mesma possa divergir da maneira como amplos setores das igrejas cristãs brasileiras têm se posicionado frente à mesma discussão. 1. Em primeiro lugar, não consideramos a decisão do STF relacionada aos direitos civis das uniões estáveis de pessoas do mesmo sexo como “ondas de imoralidade”, nem as articulações dos grupos identificados sobre a rubrica LGBTS (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Simpatizantes) como “afrontas à família brasileira e à moralidade sexual cristã”. Antes, as consideramos sob o ponto de vista da legalidade da luta política e ideológica, como expressões das possibilidades plurais de expressão próprias de qualquer estado democrático de direito. Em outros termos, compreendemos que conquistas como a sinalizada pela decisão do STF apontam para o amadurecimento da democracia, para a organização e o fortalecimento dos movimentos sociais, expressas por lutas demoradas, pacientes, assumidas por amplos setores da sociedade civil organizada. É com esta compreensão que manifestamos nosso apreço a programas como o Brasil sem Homofobia, cuja finalidade, mais do que conceder privilégios a grupos em especial, é reparar lapsos feitos a certas minorias, historicamente tratadas como pessoas de segunda categoria, estigmatizadas, e sem pleno uso de sua cidadania. 2. Em segundo lugar, compreendemos que embora decisões como a do STF não sejam eficazes na diminuição do preconceito de que os indivíduos e grupos implicados têm sido vítimas ao longo de muito tempo, ao menos ajudam a reparar injustiças históricas e a conceder a esta comunidade de pessoas direitos legais já possuídos pelo restante da sociedade. Desta maneira, entendemos que as leis que regem o nosso país, em grande parte, estão ligadas a contextos sócio-políticos e culturais onde vigiam o patriarcado, além de refletirem a visão de mundo e de sociedade das pequenas elites ocupantes dos espaços políticos e jurídicos de produção dessas leis. Como conseqüência dessa leitura, entendemos que decisões como as do STF, também são reflexo do amadurecimento político e cultural, senão diretamente de nossos representantes políticos, pelo menos de alguns setores da sociedade civil organizada. A Aliança de Batistas do Brasil compreende que conquistas como as que estão em questão, representam rupturas históricas louváveis frente aos modos de constituição das formas jurídicas que regulam a sociedade brasileira. Oxalá esse amadurecimento chegue em breve aos campos tributário, penal, ambiental e político institucional. 3. Em terceiro lugar, e do ponto de vista estritamente teológico, desejamos tornar pública nossa posição de que com o reconhecimento dos direitos civis da união estável de pessoas do mesmo sexo, os princípios evangélicos da vida com abundância, da dignidade humana e da justiça, amplamente defendidos pelas Escrituras Sagradas, são profundamente afirmados. Compreendemos que decisões legais como a que está em questão, ajudam a dirimir o senso de indignidade daqueles e daquelas que em nossa cultura cristã-patriarcal têm sido considerados “impuros”, e cuja opção, até o presente momento, tem sido os guetos de nossa sociedade. Pautados na atitude de Jesus de Nazaré, que sempre subverteu as formas com que as instituições religiosas de seus dias tratavam os “impuros”, relativizando dogmas milenares e chamando as pessoas a uma nova atitude frente àqueles excluídos, a Aliança de Batistas do Brasil compreende como uma “boa nova” o fato de que as pessoas identificadas sob a rubrica LGBTS estejam sendo incluídas no ideal de equidade social defendido pela Constituição Federal Brasileira. Também compreendemos teologicamente que eventos como a decisão unânime do STF ajudam a corroborar aquele que certamente é o maior princípio evangélico de todos, que é a defesa e a prioridade da vida. O preconceito contra a diversidade sexual, radicalizado por reações homofóbicas de todo tipo, degeneram em grande número de casos em crimes e atentados contra a integridade física dessas pessoas. Por isso, compreendemos que qualquer lei que beneficie e proteja a vida, funciona em sintonia com o espírito do Evangelho de Jesus Cristo. 4. Finalmente, como Aliança de Batistas do Brasil, entendemos que nosso papel principal, como igrejas cristãs desse tempo, seja o de contribuir no enfrentamento da intolerância que se dissemina com força cada vez maior no tecido social. Somos profundamente simpáticos a uma espiritualidade que se abra ao diálogo e que não tema o encontro com a alteridade; que se paute pela celebração da diversidade e que tenha na defesa da vida sua motivação precípua. Não defendemos essas idéias por mera sofisticação cultural, muito menos para sermos fiéis à cultura presente. Mas as defendemos, como dissemos, como conseqüência de nossa leitura do Evangelho de Jesus Cristo e de nossa relação com a herança batista da qual fazemos parte. Maceió, 17 de maio de 2011 Prª Odja Barros Presidente da Aliança de Batistas do Brasil |
Thursday, May 26, 2011
Thomas Kuhn and science
"It becomes evident that one particular theory or paradigm is always taken for granted as the right way to examine the world" - Kuhn
"But paradigms radically change or 'shift' in the course of history. Cosmological paradigms have been variously Aristotelian, Prolemaic, Copernican and Newtonian, and are currently Einsteinian. So, why do paradigms change? Because a paradigm will accumulate unsolved puzzles, not 'truths', which arise from the challenges posed by scientists themselves. The claims of Galileo or Einstein brought the dominant paradigms of their times into crisis. Scientific belief systems about heavenly spheres or light rays will then just collapse, unable to accomodate new ideas. Kuhn insists that science 'progresses' through sudden revolutionary changes, and not by some methodical evolutionary process. Scientific belief isn't that different from religious faith. New science gets accepted, not because of the persuasive force of striking new evidence, but because old scientists die off and young ones replace them." Introducing Philosophy, by Robinson and Groves.
"But paradigms radically change or 'shift' in the course of history. Cosmological paradigms have been variously Aristotelian, Prolemaic, Copernican and Newtonian, and are currently Einsteinian. So, why do paradigms change? Because a paradigm will accumulate unsolved puzzles, not 'truths', which arise from the challenges posed by scientists themselves. The claims of Galileo or Einstein brought the dominant paradigms of their times into crisis. Scientific belief systems about heavenly spheres or light rays will then just collapse, unable to accomodate new ideas. Kuhn insists that science 'progresses' through sudden revolutionary changes, and not by some methodical evolutionary process. Scientific belief isn't that different from religious faith. New science gets accepted, not because of the persuasive force of striking new evidence, but because old scientists die off and young ones replace them." Introducing Philosophy, by Robinson and Groves.
Tuesday, May 24, 2011
Thomas Kuhn e a ciência
Thomas Kuhn diria: "Fica evidente que uma teoria particular ou paradigma é sempre tomada como a maneira certa (taken for granted) de examinar o mundo."
"Paradigmas mudam radicalmente ou 'alteram' o curso da história. Paradigmas cosmológicos foram Aristotélicos, Ptolemaicos, Copernicanos, Newtonianos e agora são Einsteinianos. Então, por que os paradigmas mudam? Porque um paradigma acumulará quebra-cabeças não resolvidos, não "verdades", os quais advem dos desafios propostos pelos próprios cientistas. As alegações de Galileu ou Einstein levaram os paradigmas dominantes de seus tempos à crise. Kuhn insiste que a ciência "progride" através de mudanças revolucionárias repentinas, e não por algum processo evolucionário metódico. Crença científica não é tão diferente da fé religiosa. Nova ciência é aceita não por causa da força persuasiva de nova evidência, mas porque cientistas velhos morrem e outros mais jovens os substituem."
Trecho do livro "Introducing Philosophy" por Dave Robinson e Judy Groves, páginas 152 e 153.
"Paradigmas mudam radicalmente ou 'alteram' o curso da história. Paradigmas cosmológicos foram Aristotélicos, Ptolemaicos, Copernicanos, Newtonianos e agora são Einsteinianos. Então, por que os paradigmas mudam? Porque um paradigma acumulará quebra-cabeças não resolvidos, não "verdades", os quais advem dos desafios propostos pelos próprios cientistas. As alegações de Galileu ou Einstein levaram os paradigmas dominantes de seus tempos à crise. Kuhn insiste que a ciência "progride" através de mudanças revolucionárias repentinas, e não por algum processo evolucionário metódico. Crença científica não é tão diferente da fé religiosa. Nova ciência é aceita não por causa da força persuasiva de nova evidência, mas porque cientistas velhos morrem e outros mais jovens os substituem."
Trecho do livro "Introducing Philosophy" por Dave Robinson e Judy Groves, páginas 152 e 153.
Thursday, May 19, 2011
My daily PHP frustration - I
I couldn't get Xdebug to work. I spent more than 12 hours on it. It just didn't work. I suspect the problem is related to compatibility between the versions of PHP and Xdebug. There was no clear error message, so I can't tell. As for clients, I tried a number of them. Take a look at the list here. The Eclipse PDT plug-in - and most of the clients actually - seem to assume that you browse a PHP page directly. That was not my case: I would browse a page that had an Ajax call to PHP. The Notepad++ and the XDebugClient (stand-alone) were the most promising ones. But if it worked on Eclipse, I would stay within the IDE.
Tuesday, May 17, 2011
Histórias Verídicas do Pajé Raoni - 10 - escolinha de striptease com mastro
Em um final de semana no início de 2011, estavam sentados na mesa três casais. A mulher mais jovem, filha do anfitrião, relatou-nos esta história. Disse ela que tinha uma amiga tão religiosa e conservadora que "nem se mudou para a casa do seu namorado". Essa amiga ficou noiva. E estava muito preocupada e ansiosa em agradar na noite de núpcias. Disse ela à nossa amiga: "não sei se vou agradar o meu noivo. Mas eu estou fazendo um curso de striptease com mastro há 6 meses. Será que ele vai gostar?" Nossa amiga ficou surpresa com a "ousadia" de sua amiga, considerando seu conservadorismo religioso.
Thursday, May 05, 2011
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 10
Este post comenta a aula 16 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
A aula 16 fala sobre direitos humanos na Europa Oriental no pós-guerra. O professor John Connelly foi o convidado especial. Lembremos que no pós-guerra o mundo se polariza, alinhando-se com os Estados Unidos ou União Soviética. A Europa Oriental se alinha então (ou é submetida então) à União Sovitéica. Em suma, o professor Connelly argumenta convincentemente que os intelectuais efetivamente lideraram a luta pelos direitos humanos nesse período na Europa Oriental. A história da Carta 77 (Charta 77 ou Charter 77) é interessante. Poucas pessoas assinam a carta, uma vez que o governo ameaça e agride de fato os signatários. O governo então cria uma contra-carta, obrigando vários profissionais - incluindo professores - a assiná-la. Connelly cita o exemplo de um professor universitário que se negou a assinar a contra-carta por puro princípio de consciência, tendo que trabalhar como pedreiro por décadas como consequência. Os intelectuais então adotam uma estratégia impressionante. Eles criam "universidades livres", "populares" e móveis (e ilegais, é claro). Ensinam História básica da Checoslováquia como forma de conscientização e mobilização. Qualquer um podia assistir às aulas. Eles montam uma série de editoras clandestinas e publicam uma série de livros sobre História, Filosofia, etc. Vários livros em formato de bolso, para circular mais facilmente. Outra cena impressionante é de pessoas tentando convencer soldados russos dentro dos tanques a desistirem de suas ações. Isto é, acreditavam no diálogo e na razão. Isto em 1968. Primavera de Praga.
A aula 16 fala sobre direitos humanos na Europa Oriental no pós-guerra. O professor John Connelly foi o convidado especial. Lembremos que no pós-guerra o mundo se polariza, alinhando-se com os Estados Unidos ou União Soviética. A Europa Oriental se alinha então (ou é submetida então) à União Sovitéica. Em suma, o professor Connelly argumenta convincentemente que os intelectuais efetivamente lideraram a luta pelos direitos humanos nesse período na Europa Oriental. A história da Carta 77 (Charta 77 ou Charter 77) é interessante. Poucas pessoas assinam a carta, uma vez que o governo ameaça e agride de fato os signatários. O governo então cria uma contra-carta, obrigando vários profissionais - incluindo professores - a assiná-la. Connelly cita o exemplo de um professor universitário que se negou a assinar a contra-carta por puro princípio de consciência, tendo que trabalhar como pedreiro por décadas como consequência. Os intelectuais então adotam uma estratégia impressionante. Eles criam "universidades livres", "populares" e móveis (e ilegais, é claro). Ensinam História básica da Checoslováquia como forma de conscientização e mobilização. Qualquer um podia assistir às aulas. Eles montam uma série de editoras clandestinas e publicam uma série de livros sobre História, Filosofia, etc. Vários livros em formato de bolso, para circular mais facilmente. Outra cena impressionante é de pessoas tentando convencer soldados russos dentro dos tanques a desistirem de suas ações. Isto é, acreditavam no diálogo e na razão. Isto em 1968. Primavera de Praga.
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 9
Este post comenta as aulas 13 e 15 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (aula 13) é uma história bonita. É interessante notar que muitas pessoas de vários países e de vários históricos diferentes se uniram no trabalho de redação da declaração. Foi um trabalho longo (3 anos, se não me engano, passando por várias revisões). Pode-se dizer que muitos envolvidos na redação da declaração tinham altos níveis de educação. Prof. Laqueur sugere que a declaração é importante por fornecer uma língua comum para falar sobre direitos humanos. A declaração influenciou a constituição de diversos países posteriormente. O texto tem influência direta de outros textos históricos, como a declaração francesa. Foi também interessante notar as pressões diplomáticas para alterar o texto por diferentes países de acordo com seus interesses. O prof. Laqueur comenta rapidamente como a Igreja Católica, de forma geral, achou o texto "secular demais", por omitir a ligação direta entre dignidade humana e a divindade.
A aula 15 fala dos acordos de Helsinki e da história da Anistia Internacional. Impressionante. É muito interessante de ver a história da Anistia Internacional. É interessante ver como a Anistia Internacional já desde o início começa monitorando e relatando violações de direitos humanos nos mais variados países, das mais variadas ideologias políticas. É interessante ver como a Anistia Internacional consegue unir diversos tipos de entidades em forma de rede. Os Estados Unidos - incluindo fundações da iniciativa privada - apoiam a Anistia Internacional. E de repente, a Anistia Internacional denuncia também a cumplicidade americana em violações dos direitos humanos, o que surpreende o governo americano. O professor Laqueur também comenta como na época os organismos de direitos humanos pensavam que bastava monitorar as situações de violações de direitos humanos. Hoje sabe-se que não adianta só olhar e denunciar. Que é preciso também agir.
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 8
Este post comenta a aula 12 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
A professora Gillian Hart fala sobre direitos humanos e Apartheid na África do Sul. É muito interessante. Não quero fazer injustiça à aula comentando apenas alguns trechos. A história inteira é impressionante.
Foi interessante aprender como o Apartheid estava intimamente ligado ao Capitalismo como ideologia. Muito triste ouvir falar das horríveis violações de direitos humanos cometidas nesse período. Há, por exemplo, o caso de uma mulher que foi forçada a ficar dias em pé, até quebrar seu tornozelo de fraqueza. Foi interessante ver um detalhe da "estratégia de ação" da ANP. Lá pelos anos 50 (pelo que me lembro da aula) a ANP adotou uma estratégia de ações não-violentas de resistência ao Apartheid. Depois de uma década, ela abandonou as ações não-violentas porque "não estavam dando certo".
O problema do acesso à terra parece ter sido (e ser) muito importante no conflito. Sim, as terras estavam nas mãos de poucos.
Claro, o exemplo do processo de Verdade e Reconciliação - encabeçado pelo Rev. Desmond Tutu - é excelente. O acordo era o seguinte: crimes confessados não serviriam de evidência contra os executantes. Não posso deixar de fazer paralelos com o processo de anistia brasileiro. Como se anistia fosse amnésia. Como se em um passe de mágica tudo virasse flores. É injusto pensar que no caso do Brasil havia igualdade de forças entre as partes.
Um ponto muito interessante levantado pela professora Hart fala sobre a responsabilidade das grandes empresas privadas - tanto nacionais quanto internacionais - na manutenção do Apartheid. Legalmente esta responsabilidade não foi julgada, apesar do registro histórico que aponta para tal fato.
Não pude deixar de pensar no meu amigo Thulani da África do Sul. Influenciado por educadores católicos, Thulani igressou quando ainda adolescente a resistência armada contra o Apartheid. Na época do auge da repressão, foi preso. Hoje, Thulani trabalha pela reforma agrária justa na África do Sul e pelo direito de acesso à terra pelos povos originais e nativos.
A professora Gillian Hart fala sobre direitos humanos e Apartheid na África do Sul. É muito interessante. Não quero fazer injustiça à aula comentando apenas alguns trechos. A história inteira é impressionante.
Foi interessante aprender como o Apartheid estava intimamente ligado ao Capitalismo como ideologia. Muito triste ouvir falar das horríveis violações de direitos humanos cometidas nesse período. Há, por exemplo, o caso de uma mulher que foi forçada a ficar dias em pé, até quebrar seu tornozelo de fraqueza. Foi interessante ver um detalhe da "estratégia de ação" da ANP. Lá pelos anos 50 (pelo que me lembro da aula) a ANP adotou uma estratégia de ações não-violentas de resistência ao Apartheid. Depois de uma década, ela abandonou as ações não-violentas porque "não estavam dando certo".
O problema do acesso à terra parece ter sido (e ser) muito importante no conflito. Sim, as terras estavam nas mãos de poucos.
Claro, o exemplo do processo de Verdade e Reconciliação - encabeçado pelo Rev. Desmond Tutu - é excelente. O acordo era o seguinte: crimes confessados não serviriam de evidência contra os executantes. Não posso deixar de fazer paralelos com o processo de anistia brasileiro. Como se anistia fosse amnésia. Como se em um passe de mágica tudo virasse flores. É injusto pensar que no caso do Brasil havia igualdade de forças entre as partes.
Um ponto muito interessante levantado pela professora Hart fala sobre a responsabilidade das grandes empresas privadas - tanto nacionais quanto internacionais - na manutenção do Apartheid. Legalmente esta responsabilidade não foi julgada, apesar do registro histórico que aponta para tal fato.
Não pude deixar de pensar no meu amigo Thulani da África do Sul. Influenciado por educadores católicos, Thulani igressou quando ainda adolescente a resistência armada contra o Apartheid. Na época do auge da repressão, foi preso. Hoje, Thulani trabalha pela reforma agrária justa na África do Sul e pelo direito de acesso à terra pelos povos originais e nativos.
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 7
Este post comenta parte da aula 11 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
A aula 11 fala sobre o movimento de direitos civis nos Estados Unidos. O professor convidado chama-se Mark Brilliant. Prof. Brilliant fala especialmente sobre o problema de casamentos de pessoas de raças diferentes nos Estados Unidos. É interessante notar que o problema existia até bem pouco tempo. Do ponto de vista legal em vários estados, era ilegal o casamento de pessoas de raças diferentes. Um caso interessante citado pelo prof. Brilliant é de uma mulher descendente de Mexicanos. Ela quando criança não teve o direito de frequentar a escola pública americana por não ser branca. Quando quis casar-se com um negro quando adulta, contudo, teve esse direito negado por ser considerada branca. Ou seja, a lei é conveniente quando convém. O professor conta a história com detalhes interessantes. O desafio legal ao princípio foi realmente muito interessante. Uma ideia comum na época era a de "igualdade": brancos só podem casar com brancos e negros só podem casar com negros. Então havia igualdade e a lei era tida como justa. Já depois de iniciado o processo contra o estado da Califórnia, outro detalhe interessante foi a consulta do advogado aos antropólogos acadêmicos. Os Antropólogos começavam a desconstruir a ideia de "raça" já. Assim, nem os antropólogos sabiam precisar exatamente quantas raças existiam no mundo.
Wednesday, April 27, 2011
Pentecostalismo
A imagem de um pentecostal que expressa suas emoções durante o culto e que anda alegre e feliz é uma ótima imagem. Talvez eu tenha sido pentecostal por um tempo e tenho boas lembranças. A ideia de renovação constante e de repensar a tradição também são ótimos princípios.Também tenho que lembrar que o Pentecostalismo é abraçado por muitos irmãos e irmãs das camadas mais populares nos países pobres do hemisfério Sul.
O meu primeiro problema genérico com o Pentecostalismo é a ideia de que as revelações divinas são diretas. É como se Deus falasse diretamente com as pessoas e elas apenas repetissem as palavras de Deus.
Primeiro contra-argumento: não há como Deus "falar diretamente" com os seres humanos, porque essa expressão passaria de qualquer forma por vários "filtros impuros". Lembremos que toda mensagem tem uma fonte e um destinatário. E lembremos que toda mensagem existe ou viaja em um meio. Os "filtros impuros" estão em todos esses lugares: na linguagem e no intelecto do destinatário, no meio em que a mensagem viaja ("contexto"), etc. Problemático ainda seria pensar nos "filtros impuros" na fonte da mensagem, isto é, no lado divino.
Segundo contra-argumento: várias vezes, o que seria revelação divina nada mais é do que especulação humana. O problema está em atribuir a mensagem a Deus. Isto reveste a mensagem de autoridade de forma indevida, o que inevitavelmente leva a abusos de poder e manipulação. (Uma receita para problemas políticos sérios - do micro ao macro)
Meu segundo problema genérico com o Pentecostalismo é o reforço da divisão entre o sagrado e o profano. Deus é tão divino, tão transcendente, tão maravilhoso e tão grande e nós os seres humanos somos o extremo oposto. Não há espaço para ver Deus no sofrimento (Mateus 25). De certa forma desconfio que esta divisão é derivada da ideia de revelação direta.
Assim, os pentecostais costumam criar uma taxonomia, isto é, uma classificação estática do que é sagrado e do que é profano. Ou a coisa/pessoa/sistema/ideia é inerentemente sagrada ou é inerentemente profana. Qual seria o critério para dizer o que é sagrado e o que é profano? É o controle: o que está sob o controle do grupo (entenda-se, dos que "estão do lado correto e certo") isto é sagrado. Todo o resto é profano. É tarefa, portanto, do crente trazer o que é profano para dentro do controle do que é sagrado.
Meu terceiro problema genérico com o Pentecostalismo é a irracionalidade. De certa forma ele advém também dessa percepção da revelação direta. Para proteger a ênfase da emoção em detrimento do pensar, a irracionalidade é infelizmente muitas vezes igualada a fé. Fé por definição seria aquilo que é irracional. Pois Deus é divino, supremo, absolutamente transcendente. Pois qualquer racionalidade, isto é, o pensar, seria um filtro, um obstáculo para a revelação direta.
Mas então encontramos um problema comum a todos os cristãos: existe revelação que não seja direta?
A pergunta é importante. O desdobramento da pergunta pode ser um pouco amedrontador. Suponha que acreditar que a revelação "não seja tão direta assim" nos leve a viver um cristianismo-de-marasmo, um cristianismo-não-engajado, um cristianismo-sem-emoção. Enfim, um cristianismo-de-faz-de-conta. Em outras palavras, se a pessoa não crê que exista "revelação completamente direta", esta pessoa pode mais facilmente ser levada a acreditar que não existam crença e crentes tão dedicados a suas causas.
O meu primeiro problema genérico com o Pentecostalismo é a ideia de que as revelações divinas são diretas. É como se Deus falasse diretamente com as pessoas e elas apenas repetissem as palavras de Deus.
Primeiro contra-argumento: não há como Deus "falar diretamente" com os seres humanos, porque essa expressão passaria de qualquer forma por vários "filtros impuros". Lembremos que toda mensagem tem uma fonte e um destinatário. E lembremos que toda mensagem existe ou viaja em um meio. Os "filtros impuros" estão em todos esses lugares: na linguagem e no intelecto do destinatário, no meio em que a mensagem viaja ("contexto"), etc. Problemático ainda seria pensar nos "filtros impuros" na fonte da mensagem, isto é, no lado divino.
Segundo contra-argumento: várias vezes, o que seria revelação divina nada mais é do que especulação humana. O problema está em atribuir a mensagem a Deus. Isto reveste a mensagem de autoridade de forma indevida, o que inevitavelmente leva a abusos de poder e manipulação. (Uma receita para problemas políticos sérios - do micro ao macro)
Meu segundo problema genérico com o Pentecostalismo é o reforço da divisão entre o sagrado e o profano. Deus é tão divino, tão transcendente, tão maravilhoso e tão grande e nós os seres humanos somos o extremo oposto. Não há espaço para ver Deus no sofrimento (Mateus 25). De certa forma desconfio que esta divisão é derivada da ideia de revelação direta.
Assim, os pentecostais costumam criar uma taxonomia, isto é, uma classificação estática do que é sagrado e do que é profano. Ou a coisa/pessoa/sistema/ideia é inerentemente sagrada ou é inerentemente profana. Qual seria o critério para dizer o que é sagrado e o que é profano? É o controle: o que está sob o controle do grupo (entenda-se, dos que "estão do lado correto e certo") isto é sagrado. Todo o resto é profano. É tarefa, portanto, do crente trazer o que é profano para dentro do controle do que é sagrado.
Meu terceiro problema genérico com o Pentecostalismo é a irracionalidade. De certa forma ele advém também dessa percepção da revelação direta. Para proteger a ênfase da emoção em detrimento do pensar, a irracionalidade é infelizmente muitas vezes igualada a fé. Fé por definição seria aquilo que é irracional. Pois Deus é divino, supremo, absolutamente transcendente. Pois qualquer racionalidade, isto é, o pensar, seria um filtro, um obstáculo para a revelação direta.
Mas então encontramos um problema comum a todos os cristãos: existe revelação que não seja direta?
A pergunta é importante. O desdobramento da pergunta pode ser um pouco amedrontador. Suponha que acreditar que a revelação "não seja tão direta assim" nos leve a viver um cristianismo-de-marasmo, um cristianismo-não-engajado, um cristianismo-sem-emoção. Enfim, um cristianismo-de-faz-de-conta. Em outras palavras, se a pessoa não crê que exista "revelação completamente direta", esta pessoa pode mais facilmente ser levada a acreditar que não existam crença e crentes tão dedicados a suas causas.
Tuesday, April 19, 2011
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 6
Este post comenta parte da aula 10 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
É muito interessante ver alguns detalhes que aconteceram depois da II Guerra Mundial na Alemanha. O professor Laqueur fala sobre verdade e memória. A Alemanha deliberadamente tentou documentar fatos históricos do holocausto. Por exemplo, dados de trânsito de trens que levavam judeus e outros grupos para campos de concentração com hora, data, número de pessoas, origem, destino, etc foram expostos publicamente. Depois da guerra criaram programas para lembrar do holocausto: monumentos, etc. Os próprios julgamentos de Nuremberg, de acordo com o que diz Laqueur, foram muito reveladores. Laqueur também diz que há prédios inteiros nos Estados Unidos (ele cita Washington) com documentos históricos da Alemanha nazista. Parece que foram confiscados pela Aliança ou algo assim.
No caso do genocídio armênio, há grande dificuldade de acesso aos documentos, pois o governo turco até hoje os mantém em segredo.
Não posso deixar de pensar no processo de verdade, reconciliação e justiça relativo aos abusos de direitos humanos durante o período de ditadura militar no Brasil. É triste ver como não se passou a limpo o que aconteceu. A Lei da Anistia parece mais um apelo à amnésia pública do que um tratamento digno da História.
É muito interessante ver alguns detalhes que aconteceram depois da II Guerra Mundial na Alemanha. O professor Laqueur fala sobre verdade e memória. A Alemanha deliberadamente tentou documentar fatos históricos do holocausto. Por exemplo, dados de trânsito de trens que levavam judeus e outros grupos para campos de concentração com hora, data, número de pessoas, origem, destino, etc foram expostos publicamente. Depois da guerra criaram programas para lembrar do holocausto: monumentos, etc. Os próprios julgamentos de Nuremberg, de acordo com o que diz Laqueur, foram muito reveladores. Laqueur também diz que há prédios inteiros nos Estados Unidos (ele cita Washington) com documentos históricos da Alemanha nazista. Parece que foram confiscados pela Aliança ou algo assim.
No caso do genocídio armênio, há grande dificuldade de acesso aos documentos, pois o governo turco até hoje os mantém em segredo.
Não posso deixar de pensar no processo de verdade, reconciliação e justiça relativo aos abusos de direitos humanos durante o período de ditadura militar no Brasil. É triste ver como não se passou a limpo o que aconteceu. A Lei da Anistia parece mais um apelo à amnésia pública do que um tratamento digno da História.
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 5
Este post comenta as aulas 9 e 10 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
A aula 9 fala sobre o genocídio armênio (ou ainda, os massacres armênios, ou o holocausto armênio). Aprendi que os armênios não eram tolerados no império Otomano porque eram considerados "inassimiláveis".
A professora convidada da aula 9 explica muito bem que o problema principal hoje em caracterizar os massacres armênios é um problema de linguagem. O termo "genocídio" é relativamente recente. A ONU tem uma definição, por exemplo, que inclui planejamento e execução sistemática. Mesmo que os massacres armênios hoje se encaixem nessas descrições, na época não havia esta linguagem. A última frase da professora convidada é uma citação de Hitler. Em 1939, Hitler disse: "Afinal quem fala hoje do extermínio dos armênios?"
A aula 10 fala sobre o holocausto dos judeus na Europa nazista. O mesmo pode-se dizer dos judeus na Alemanha nazista. A identidade judia era cosmopolita, internacional. Assim, os judeus iam contra uma identidade alemã "pura", nacional. O professor Laqueur ajuda a desfazer alguns "mitos", desacreditando alguns argumentos que ouvi durante minhas aulas do 2o grau sobre o assunto. Laqueur diz (com cuidado acadêmico, assumindo que este assunto é controverso) que o holocausto não foi o primeiro evento da História de horror inimaginável. Laqueur também diz que as pessoas que levaram adiante as tarefas nazistas eram como nós: pessoas comuns. Laqueur também afirma que o racismo nazista não foi algo único na História: em várias outras instâncias houve racismo. O que pode-se afirmar é que a Alemanha tinha um sistema educacional forte, e que assim seguiram o plano de extermínio com muita precisão e ordem. Isto é, muita burocracia. Laqueur também diz que não é correto pôr a culpa em um suposto anti-semitismo de Lutero.
A pergunta do professor Laqueur é: o holocausto foi legal? E assustadoramente a resposta é sim. Legalmente, a Alemanha nazista suspendeu gradativamente antes da 2a guerra mundial uma série de direitos individuais e coletivos. E codificou em lei a noção de "identidade alemã pura" por nascimento (isto é, "alemão" é aquele cujos 4 avós são alemães) sendo outros grupos menos importantes. Algumas etnias serviam de mão-de-obra barata aos alemães. Estes podiam ser mortos, mas não podiam matar muitos. Outros eram concorrentes econômicos, como os judeus, e foram considerados simplesmente não-assimiláveis.
Os julgamentos de Nuremberg são citados. É interessante um exemplo citado pelo professor de um sujeito responsável pelo sistema ferroviário da Alemanha Nazista. Os trens na época eram usados para o transporte de judeus e outros grupos de cidades para campos de concentração e extermínio. Este sujeito via seu trabalho como algo burocrático. Queria encher trens de pessoas e enviá-las na hora certa para seus destinos. Nos julgamentos, contudo, o sujeito é acusado de colaborar com o plano nazista de extermínio.
O professor Laqueur também cita o experimento de Milgram. Eu já tinha ouvido um documentário curto sobre o experimento. É impressionante (e assustador). É impressionante como pessoas "comuns" se dispõem a cometer atrocidades em determinadas circunstâncias.
A aula 9 fala sobre o genocídio armênio (ou ainda, os massacres armênios, ou o holocausto armênio). Aprendi que os armênios não eram tolerados no império Otomano porque eram considerados "inassimiláveis".
A professora convidada da aula 9 explica muito bem que o problema principal hoje em caracterizar os massacres armênios é um problema de linguagem. O termo "genocídio" é relativamente recente. A ONU tem uma definição, por exemplo, que inclui planejamento e execução sistemática. Mesmo que os massacres armênios hoje se encaixem nessas descrições, na época não havia esta linguagem. A última frase da professora convidada é uma citação de Hitler. Em 1939, Hitler disse: "Afinal quem fala hoje do extermínio dos armênios?"
A aula 10 fala sobre o holocausto dos judeus na Europa nazista. O mesmo pode-se dizer dos judeus na Alemanha nazista. A identidade judia era cosmopolita, internacional. Assim, os judeus iam contra uma identidade alemã "pura", nacional. O professor Laqueur ajuda a desfazer alguns "mitos", desacreditando alguns argumentos que ouvi durante minhas aulas do 2o grau sobre o assunto. Laqueur diz (com cuidado acadêmico, assumindo que este assunto é controverso) que o holocausto não foi o primeiro evento da História de horror inimaginável. Laqueur também diz que as pessoas que levaram adiante as tarefas nazistas eram como nós: pessoas comuns. Laqueur também afirma que o racismo nazista não foi algo único na História: em várias outras instâncias houve racismo. O que pode-se afirmar é que a Alemanha tinha um sistema educacional forte, e que assim seguiram o plano de extermínio com muita precisão e ordem. Isto é, muita burocracia. Laqueur também diz que não é correto pôr a culpa em um suposto anti-semitismo de Lutero.
A pergunta do professor Laqueur é: o holocausto foi legal? E assustadoramente a resposta é sim. Legalmente, a Alemanha nazista suspendeu gradativamente antes da 2a guerra mundial uma série de direitos individuais e coletivos. E codificou em lei a noção de "identidade alemã pura" por nascimento (isto é, "alemão" é aquele cujos 4 avós são alemães) sendo outros grupos menos importantes. Algumas etnias serviam de mão-de-obra barata aos alemães. Estes podiam ser mortos, mas não podiam matar muitos. Outros eram concorrentes econômicos, como os judeus, e foram considerados simplesmente não-assimiláveis.
Os julgamentos de Nuremberg são citados. É interessante um exemplo citado pelo professor de um sujeito responsável pelo sistema ferroviário da Alemanha Nazista. Os trens na época eram usados para o transporte de judeus e outros grupos de cidades para campos de concentração e extermínio. Este sujeito via seu trabalho como algo burocrático. Queria encher trens de pessoas e enviá-las na hora certa para seus destinos. Nos julgamentos, contudo, o sujeito é acusado de colaborar com o plano nazista de extermínio.
O professor Laqueur também cita o experimento de Milgram. Eu já tinha ouvido um documentário curto sobre o experimento. É impressionante (e assustador). É impressionante como pessoas "comuns" se dispõem a cometer atrocidades em determinadas circunstâncias.
Thursday, April 14, 2011
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 4
Este post comenta a aula 8 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur, contando com a participações eventuais de outros professores.
Nesta aula, Namwali Serpell, professora de Literatura Inglesa, é convidada especial.
Professor Laqueur começa falando sobre o Congo.
Acontece um grande congresso em Berlim em 1885, convicado por Otto Eduard Leopold von Bismarck para definir a partilha da África. (Além do fato assustador de se partilhar um território entre indivíduos, é preciso notar que nenhum africano estava presente na reunião). O Rei Leopoldo da Bélgica, que nem estava presente na reunião, consegue o Congo inteiro como sua propriedade particular! Sim, um território maior que a Europa toda. Dizia o Rei Leopoldo que queria cristianizar esta parte da África. Mas ao invés de levar cristianismo ao Congo, ele decide explorar toda a borracha do Congo. A borracha nessa época estava em alta demanda. E o rei Leopoldo explorou a borracha no Congo com grande brutalidade.
Edmund Dene Morel era um jornalista inglês, filho de Quakers. Morel foi ao Congo e documentou a escravidão e abusos de direitos humanos. Morel era responsávelo pela alfândega do Congo. Ele notou que produtos só saíam do Congo e nada entrava. De acordo com Laqueur, Morel faz parte do mesmo grupo de pessoas que participaram em reformas de prisões, de fábricas, contra o trabalho infantil, etc. Ele era mais radical que a maioria dos outros 'religiosos'. Ele entendeu que este caso (Congo) não era só um mal, mas uma instância de um sistema mau. Ele gastou a sua vida mobilizando pessoas.
George Washington Williams era um pastor Batista americano, militar e historiador. Ele primeiramente acha que o Rei Leopoldo da Bélgica é muito bom e deseja reunir um grupo de missionários para enviar ao Congo. Ele então visita o rei Leopoldo para falar de seu desejo. Ele vai ao Congo antes para conhecer o lugar. Rei Leopoldo de forma hipócrita diz que o que faz lá é um compromisso cristão com os pobres africanos. No Congo, Williams vê os horrores do tratamento dos congoleses. Desiludido, Williams escreve então um livro. Dá-se conta de que Leopoldo é um tirano, que estavam criando acampamentos militares com europeus e africanos mercenários. Que estavam lá basicamente para explorar o lugar. Williams faz relatos de grandes agressões contra a vida dos congoleses. Descreve, por exemplo, como europeus atiravam em congoleses aleatoreamente, sem motivo. Williams não manda seus missionários e morre logo após.
Nesta aula, Namwali Serpell, professora de Literatura Inglesa, é convidada especial.
Professor Laqueur começa falando sobre o Congo.
Acontece um grande congresso em Berlim em 1885, convicado por Otto Eduard Leopold von Bismarck para definir a partilha da África. (Além do fato assustador de se partilhar um território entre indivíduos, é preciso notar que nenhum africano estava presente na reunião). O Rei Leopoldo da Bélgica, que nem estava presente na reunião, consegue o Congo inteiro como sua propriedade particular! Sim, um território maior que a Europa toda. Dizia o Rei Leopoldo que queria cristianizar esta parte da África. Mas ao invés de levar cristianismo ao Congo, ele decide explorar toda a borracha do Congo. A borracha nessa época estava em alta demanda. E o rei Leopoldo explorou a borracha no Congo com grande brutalidade.
Edmund Dene Morel era um jornalista inglês, filho de Quakers. Morel foi ao Congo e documentou a escravidão e abusos de direitos humanos. Morel era responsávelo pela alfândega do Congo. Ele notou que produtos só saíam do Congo e nada entrava. De acordo com Laqueur, Morel faz parte do mesmo grupo de pessoas que participaram em reformas de prisões, de fábricas, contra o trabalho infantil, etc. Ele era mais radical que a maioria dos outros 'religiosos'. Ele entendeu que este caso (Congo) não era só um mal, mas uma instância de um sistema mau. Ele gastou a sua vida mobilizando pessoas.
George Washington Williams era um pastor Batista americano, militar e historiador. Ele primeiramente acha que o Rei Leopoldo da Bélgica é muito bom e deseja reunir um grupo de missionários para enviar ao Congo. Ele então visita o rei Leopoldo para falar de seu desejo. Ele vai ao Congo antes para conhecer o lugar. Rei Leopoldo de forma hipócrita diz que o que faz lá é um compromisso cristão com os pobres africanos. No Congo, Williams vê os horrores do tratamento dos congoleses. Desiludido, Williams escreve então um livro. Dá-se conta de que Leopoldo é um tirano, que estavam criando acampamentos militares com europeus e africanos mercenários. Que estavam lá basicamente para explorar o lugar. Williams faz relatos de grandes agressões contra a vida dos congoleses. Descreve, por exemplo, como europeus atiravam em congoleses aleatoreamente, sem motivo. Williams não manda seus missionários e morre logo após.
Sunday, April 10, 2011
On hopelessness
Yes, I have experienced "dryness" and "hopelessness". Some experiences were evident life threats. Other experiences were more complex and were like scary demons that haunted me with refinements of evil.
Mário Quintana was a great Brazilian poet from my home town. He, wrote:
Let our woes suffice to ourselves
For to no one his cross is tiny.
As bad as the situation in China is,
Our corn hurts much more...
That is, I was the one in the midst of these events and only I know how I felt. To me, these events indeed contained in them hopelessness.
In one way it is difficult for me to speak about some events. That is because they are very much private in one sense. I find it is less difficult to speak about situations where we have no control over the events. That is, when disaster just felt upon me. The other situations - the more complex ones - they expose more readily a certain inability. They would describe a struggle with myself and with God, much like Jacob.
When I was about 7 years old, a "friend" of mine almost drowned me. I thought I would die under water. I got to a point where I couldn't even struggle anymore and was still under water. For a split second I was clearly aware of the possibility of death.
Shortly after that, this same "friend" threw a thick stick on my sister that got into her eye. I still remember my feeling of horror as I ran with her towards my mother. She was in my mind the symbol of everything pure, simple and delicate. In a split second I was in a scene of horror. I can share with you later on other moments of hopelessness. The list includes robbery, swimming in a stormy sea, car accidents, aircraft accidents, failing courses, etc. And there's the unspeakable list of private hopeless moments.
If God is good, why does he or she or it let these things happen in the first place? Is he sarcastic? Does he need attention like a 2 year old with tantrum? Or would it fit the characteristic of a God who likes to torture his creatures?
As for my faith or the lack of it as it stands, I have a problem with simplistic answers. I'm in constant tension between simple answers and complex doubts. I'm hesitant to embrase the simplistic idea of 'don't worry, everything will be alright at the end'. I don't like this idea because it often hides the dirt and the blood. It is almost like a denial of suffering or hopelessness. It rushes to avoid hopelessness. Do you know that song 'Shinny Happy People' by REM?
Shiny happy people laughing
Meet me in the crowd
People people
Throw your love around
Love me love me
Take it into town
Happy happy
Put it in the ground
Where the flowers grow
Gold and silver shine
Shiny happy people holding hands
Shiny happy people laughing
Everyone around love them, love them
Put it in your hands
Take it take it
There's no time to cry
Happy happy
Put it in your heart
Where tomorrow shines
Gold and silver shine
Shiny happy people holding hands
Shiny happy people laughing
Do you remember the ending of the Life of Brian by Monty Pyton? "Always look at the bright side of life"
The Ottawa Citizen ran on May 2008 a story on Father Suarez, a charismatic catholic priest said to have the gift of healing by some.
It read:
"After mass, people scrambled forward to have Father Suarez lay his hands on them, pushing and stumbling so much that his assistant, Father Jeff Shannon, had to appeal for good manners and forgiveness for queue-jumpers. Silently, Father Suarez put his hand on each forehead, shoulder, or neck, sometimes even tweaking a nose while Father Shannon kept up an encouraging patter: “Love, love, love! Happy, happy, happy!"
I don't like that. It sounds too much like Polyanna.
I prefer accounts that acknowlege the mess of life and death. That's why I like the Bible. In one page Jesus ressurects Lazarus. In the next page he cries out 'My God, my God, why have you forsaken me?".
It's too simplistic to think that God will always come to the rescue. Ok, Lazarus was ressurected by Jesus. But other times people just die. We still see horror today in the form of war, hunger or personal crises.
I don't know anyone who has come back to life after death. I frankly struggle with the word "death" a bit. Yes, my grandmother died. In one way we know what it means to die. But I start to scratch my head when I think of it. One definition of "death" is the end of everything. It is when you don't feel anything anymore. It is when you don't exist anymore. But then, if there's life after death, then "death" is not realy "dead dead". It's kind of sleeping. So you get to live forever and you can't die. You never cease to exist. And apparently that is something good.
I'm reminded of José Saramago's book, Death with Interruptions. I didn't read it, but from what I heard, it is a story about when people stop dying. Religion collapses, because there's no need for it anymore. The economy also collapses, because the working class needs to support an ever increasing multitude of people who live forever.
On the other hand, I can see myself clinging to this hope of life after death. At my current stage of faith and my lack of it, I like to see small, modest signs of hope in the middle of dispair. I prefer to acknowledge the dispair and the hope.
Friday, April 08, 2011
Thursday, March 31, 2011
A ética protestante e o espírito do capitalismo - comentários aleatórios - parte 3
Tradução livre do Gustavo:
"Finalmente, [o poder do ascetismo religioso] deu [ao homem] a garantia consoladora de que a distribuição desigual de bens desse mundo era uma dispensação especial da Divina Providência, a qual nessas diferenças, como em particular na graça, buscava fins secretos desconhecidos dos homens. Calvino mesmo fez a afirmação muito citada de que somente quando as pessoas, isto é, a massa de trabalhadores e artesãos fossem pobres permaneceriam elas obedientes a Deus." - página 177
"Desejar ser pobre era o mesmo que desejar ser doente" - página 163
Qualquer coincidência com a Teologia da Prosperidade não é mera coincidência. Talvez possamos fazer uma distinção, contudo, entre ganhar dinheiro trabalhando muito e a Lei de Gerson.
Coibições e restrições a "coisas do mundo" também tolhiam as pessoas e botavam lenha na fogueira capitalista. Artes, obviamente, eram "coisas do mundo". Era alegria demais para o crente:
"O teatro era ofensivo aos Puritanos, e com a estrita exclusão do erótico e do nu do campo da tolerância, uma visão radical da literatura ou da arte não poderia existir. As concepções de conversa fiada, de superfluidade, e de ostentação vã, todas designações de uma atitude irracional sem propósito objetivo, e portanto não ascéticos, e especialmente não serviam para a Glória de Deus, mas do homem, sempre estava disponível para servir à decisão à favor da utilidade sóbria contra qualquer tendência artística. [...] Essa tendência poderosa rumo à uniformidade da vida, a qual hoje tão grandemente ajuda o interesse capitalista na padronização da produção, teve sua fundação original no repúdio de toda a idolatria da carne."
"Finalmente, [o poder do ascetismo religioso] deu [ao homem] a garantia consoladora de que a distribuição desigual de bens desse mundo era uma dispensação especial da Divina Providência, a qual nessas diferenças, como em particular na graça, buscava fins secretos desconhecidos dos homens. Calvino mesmo fez a afirmação muito citada de que somente quando as pessoas, isto é, a massa de trabalhadores e artesãos fossem pobres permaneceriam elas obedientes a Deus." - página 177
"Desejar ser pobre era o mesmo que desejar ser doente" - página 163
Qualquer coincidência com a Teologia da Prosperidade não é mera coincidência. Talvez possamos fazer uma distinção, contudo, entre ganhar dinheiro trabalhando muito e a Lei de Gerson.
Coibições e restrições a "coisas do mundo" também tolhiam as pessoas e botavam lenha na fogueira capitalista. Artes, obviamente, eram "coisas do mundo". Era alegria demais para o crente:
"O teatro era ofensivo aos Puritanos, e com a estrita exclusão do erótico e do nu do campo da tolerância, uma visão radical da literatura ou da arte não poderia existir. As concepções de conversa fiada, de superfluidade, e de ostentação vã, todas designações de uma atitude irracional sem propósito objetivo, e portanto não ascéticos, e especialmente não serviam para a Glória de Deus, mas do homem, sempre estava disponível para servir à decisão à favor da utilidade sóbria contra qualquer tendência artística. [...] Essa tendência poderosa rumo à uniformidade da vida, a qual hoje tão grandemente ajuda o interesse capitalista na padronização da produção, teve sua fundação original no repúdio de toda a idolatria da carne."
A ética protestante e o espírito do capitalismo - comentários aleatórios - parte 2
(Parte 1 aqui)
Um detalhe interessante de se perguntar decorre da pergunta sobre a visibilidade que as pessoas poderiam ter sobre o desenrolar do capitalismo ao longo do século XX. Tentando ler de forma "positiva" esses trechos do livro, consigo imaginar um indivíduo Calvinista, por exemplo, pregando o zelo pelo trabalho. Os ganhos individuais pareciam estar próximos. Nós hoje temos o benefício de saber como a história se desenrolou. Por que esses crentes não anteveram os problemas que os exageros do Capitalismo traria? O problema começa a ficar complexo para mim quando começo a pensar na coletividade. Se as práticas comerciais e consequentes conceitos de justiça, respeito, valorização da vida, etc, dos países europeus foram tão danosos para os países colonizados, por que os Protestantes não questionaram a nova ordem capitalista nesses termos? Weber foi um "acadêmico cuja extensão intelectual era extraordinariamente ampla", conforme escreve Tawney no prefácio. O livro, contudo, não levanta nenhuma problemática do "novo mundo". Esta omissão de Weber poderia ter duas causas:
- Weber, sociólogo Alemão, omitiu as questões de justiça e ética "global" por um lapso próprio. Weber cita civilizações antigas do Oriente já na sua introdução, comparando-as com a Europa.
- Weber omitiu as questões de justiça e ética "global" por um lapso próprio e também porque tais questões não foram levantadas historicamente pelos Protestantes. Esta segunda hipótese pode ser verdadeira, mas ainda não tenho elementos suficientes para apoiá-la. É certo que, por exemplo, houve uma mobilização no final do século XVIII pela abolição da escravatura onde alguns Protestantes tiveram papel importante. Contudo, mesmo este movimento de contestação da abolição da escravatura talvez não sirva como exemplo de um protesto contra um sistema econômico inerentemente injusto ou anti-ético.
A tempo: eu encontrei o termo "encomienda" duas vezes no livro, nas páginas 18 e 58 da minha edição (em Inglês, tradução do Alemão).
Um detalhe interessante de se perguntar decorre da pergunta sobre a visibilidade que as pessoas poderiam ter sobre o desenrolar do capitalismo ao longo do século XX. Tentando ler de forma "positiva" esses trechos do livro, consigo imaginar um indivíduo Calvinista, por exemplo, pregando o zelo pelo trabalho. Os ganhos individuais pareciam estar próximos. Nós hoje temos o benefício de saber como a história se desenrolou. Por que esses crentes não anteveram os problemas que os exageros do Capitalismo traria? O problema começa a ficar complexo para mim quando começo a pensar na coletividade. Se as práticas comerciais e consequentes conceitos de justiça, respeito, valorização da vida, etc, dos países europeus foram tão danosos para os países colonizados, por que os Protestantes não questionaram a nova ordem capitalista nesses termos? Weber foi um "acadêmico cuja extensão intelectual era extraordinariamente ampla", conforme escreve Tawney no prefácio. O livro, contudo, não levanta nenhuma problemática do "novo mundo". Esta omissão de Weber poderia ter duas causas:
- Weber, sociólogo Alemão, omitiu as questões de justiça e ética "global" por um lapso próprio. Weber cita civilizações antigas do Oriente já na sua introdução, comparando-as com a Europa.
- Weber omitiu as questões de justiça e ética "global" por um lapso próprio e também porque tais questões não foram levantadas historicamente pelos Protestantes. Esta segunda hipótese pode ser verdadeira, mas ainda não tenho elementos suficientes para apoiá-la. É certo que, por exemplo, houve uma mobilização no final do século XVIII pela abolição da escravatura onde alguns Protestantes tiveram papel importante. Contudo, mesmo este movimento de contestação da abolição da escravatura talvez não sirva como exemplo de um protesto contra um sistema econômico inerentemente injusto ou anti-ético.
A tempo: eu encontrei o termo "encomienda" duas vezes no livro, nas páginas 18 e 58 da minha edição (em Inglês, tradução do Alemão).
Wednesday, March 30, 2011
A ética protestante e o espírito do capitalismo - comentários aleatórios - parte 1
Terminei de ler "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" de Max Weber, escrito por volta de 1905. Li como um brasileiro procurando no texto evidências para algumas perguntas:
- Como podemos medir a influência da Reforma Protestante no avanço do Capitalismo na Inglaterra no século XIX?
- Qual visibilidade teria Max Weber no início do século XX sobre o desenrolar posterior do Capitalismo considerando questões genéricas de pobreza e justiça?
Ao ler as páginas, coloquei-me por vezes no lugar de um Protestante Calvinista, por exemplo. Em resumo, o lema era o seguinte: trabalhe duro. Trabalhe porque ficar de papo-pro-ar é pecado. Trabalhe duro porque a experiência do divino contrasta com a experiência do mundo e o trabalho é um sinal de virtuosidade divinamente outorgado. Isto é, "trabalhar glorifica a Deus". Outro detalhe muito interessante é notar como o racionalismo (vindo do Iluminismo) muda toda a concepção de trabalho e propósito. Este racionalismo ordena a prática religiosa e o trabalho ao mesmo tempo. Há hora para trabalhar. E trabalhar em um sistema de produção em série. (Lembremos do filme "Tempos Modernos" com Charlin Chaplin. O homem é uma peça no sistema de produção. Ele é "coisificado".) Gozar a vida é visto como perda de tempo e, portanto, pecado. As pessoas assim são reduzidas à sua capacidade produtiva. O acúmulo de bens é um indicativo direto do status da religiosidade da pessoa. Isto é, quanto mais dinheiro e bens, mais "abençoado". Rapidamente comparo esse espírito com a Teologia da Prosperidade atual do neopentecostalismo sulamericano.
- Como podemos medir a influência da Reforma Protestante no avanço do Capitalismo na Inglaterra no século XIX?
- Qual visibilidade teria Max Weber no início do século XX sobre o desenrolar posterior do Capitalismo considerando questões genéricas de pobreza e justiça?
Ao ler as páginas, coloquei-me por vezes no lugar de um Protestante Calvinista, por exemplo. Em resumo, o lema era o seguinte: trabalhe duro. Trabalhe porque ficar de papo-pro-ar é pecado. Trabalhe duro porque a experiência do divino contrasta com a experiência do mundo e o trabalho é um sinal de virtuosidade divinamente outorgado. Isto é, "trabalhar glorifica a Deus". Outro detalhe muito interessante é notar como o racionalismo (vindo do Iluminismo) muda toda a concepção de trabalho e propósito. Este racionalismo ordena a prática religiosa e o trabalho ao mesmo tempo. Há hora para trabalhar. E trabalhar em um sistema de produção em série. (Lembremos do filme "Tempos Modernos" com Charlin Chaplin. O homem é uma peça no sistema de produção. Ele é "coisificado".) Gozar a vida é visto como perda de tempo e, portanto, pecado. As pessoas assim são reduzidas à sua capacidade produtiva. O acúmulo de bens é um indicativo direto do status da religiosidade da pessoa. Isto é, quanto mais dinheiro e bens, mais "abençoado". Rapidamente comparo esse espírito com a Teologia da Prosperidade atual do neopentecostalismo sulamericano.
Tuesday, March 29, 2011
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 3
Este post comenta a aula 5 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur.
A aula fala do movimento contra a escravatura no século XVIII como sendo o primeiro movimento coordenado contra abusos dos direitos humanos. A partir daí criaram-se instrumentos legais para proteção contra tais abusos.
Anthony Benezet era Huguenote. Sua família foi expulsa da França e foi para a Filadélfia. Nos EUA, virou um Quaker. Os Quakers foram muito importantes no movimento contra a escravatura. O prof Laqueur fala de um 'núcleo' de pessoas que começaram o movimento. Benezet como religioso. W Wilberforce era político. Passa também por uma experiência de conversão (virando "evangelical" ou "evangélico") que o compele a lutar por direitos humanos. (Nota: ele era "independente", sem filiação a partido... ).
Os Quakers tinham o que chamavam de 'o encontro', que era o seu culto. Sentados em círculo , qualquer um poderia ter a palavra e dizer o que vinha em seu coração. A ideia era a de que Deus poderia falar através de qualquer um. A bandeira contra a escravatura partiu de poucos grupos/comunidades locais de Quakers prosseguindo para os Quakers como um todo (como denominação).
Algo interessante de notar também é como as narrativas influenciam a mobilização pública. Nessa época a acessibilidade dos impressos ajudaram a alastrar os relatos de abusos dos direitos humanos em países pobres. Um caso interessante foi a de um navio negreiro. Em um temporal, jogaram os escravos no mar para pegar o dinheiro do seguro depois. De volta à Inglaterra, basearam sua ação na justiça alegando que os escravos eram mercadoria. E ganharam na justiça. A seguradora entrou com recurso, mas perdeu. Nessa altura do campeonato, o movimento contra a escravatura já estava articulado, e denunciou tudo como absurdo. Mas voltando às narrativas, é interessante ver como elas influenciaram a opinião pública. Começaram a aparecer relatos de testemunhas oculares de violações de direitos humanos: relatos detalhados de torturas e execuções dos escravos.
Uma pergunta interessante foi essa: será que a Inglaterra não agiu por puro interesse econômico abolindo a escravatura? A resposta do prof Laqueur, baseando-se em outros colegas historiadores, é que não. Que neste caso a Inglaterra passaria a ter menos lucro sem a escravatura. O prof Laqueur sublinha a importância do engajamento religioso (dos Protestantes) no movimento contra a escravatura.
A aula fala do movimento contra a escravatura no século XVIII como sendo o primeiro movimento coordenado contra abusos dos direitos humanos. A partir daí criaram-se instrumentos legais para proteção contra tais abusos.
Anthony Benezet era Huguenote. Sua família foi expulsa da França e foi para a Filadélfia. Nos EUA, virou um Quaker. Os Quakers foram muito importantes no movimento contra a escravatura. O prof Laqueur fala de um 'núcleo' de pessoas que começaram o movimento. Benezet como religioso. W Wilberforce era político. Passa também por uma experiência de conversão (virando "evangelical" ou "evangélico") que o compele a lutar por direitos humanos. (Nota: ele era "independente", sem filiação a partido... ).
Os Quakers tinham o que chamavam de 'o encontro', que era o seu culto. Sentados em círculo , qualquer um poderia ter a palavra e dizer o que vinha em seu coração. A ideia era a de que Deus poderia falar através de qualquer um. A bandeira contra a escravatura partiu de poucos grupos/comunidades locais de Quakers prosseguindo para os Quakers como um todo (como denominação).
Algo interessante de notar também é como as narrativas influenciam a mobilização pública. Nessa época a acessibilidade dos impressos ajudaram a alastrar os relatos de abusos dos direitos humanos em países pobres. Um caso interessante foi a de um navio negreiro. Em um temporal, jogaram os escravos no mar para pegar o dinheiro do seguro depois. De volta à Inglaterra, basearam sua ação na justiça alegando que os escravos eram mercadoria. E ganharam na justiça. A seguradora entrou com recurso, mas perdeu. Nessa altura do campeonato, o movimento contra a escravatura já estava articulado, e denunciou tudo como absurdo. Mas voltando às narrativas, é interessante ver como elas influenciaram a opinião pública. Começaram a aparecer relatos de testemunhas oculares de violações de direitos humanos: relatos detalhados de torturas e execuções dos escravos.
Uma pergunta interessante foi essa: será que a Inglaterra não agiu por puro interesse econômico abolindo a escravatura? A resposta do prof Laqueur, baseando-se em outros colegas historiadores, é que não. Que neste caso a Inglaterra passaria a ter menos lucro sem a escravatura. O prof Laqueur sublinha a importância do engajamento religioso (dos Protestantes) no movimento contra a escravatura.
Sunday, March 27, 2011
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 2
Este post comenta a aula 4 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur.
O professor Laqueur comenta as diversas Constituições europeias e Estadonidenses do século XVIII. Aprendi que as Constituições nasceram de uma necessidade de se criar leis que fossem acima de quaisquer outras leis, garantindo princípios fundamentais do indivíduo. Um princípio fundamental que está em quase todas essas cartas é o da igualdade ("dos homens"). Na verdade, podemos sumarizar a motivação para essas cartas no lema da Revolução Francesa: liberté (liberdade), égalité (igualdade), fraternité (fraternidade).
- Liberdade - por princípio fundamental (garantido por lei), as pessoas são e devem ser livres.
- Igualdade - noção de que todos/as são iguais, têm o mesmo "valor" humano intrínseco. (Assim, já não dá para justificar mais os Aristrocatas que não fazem nada. ) (Lembro-me de uma citação de Roberto Campos no livro "As Veias Abertas da América Latina" - e aqui parafraseio porque não estou com o livro em mãos - onde diz que os países pobres assim o são porque são predestinados a sofrer como tais. )
A noção de igualdade ainda me parece difícil de desempacotar. Sim, por um lado somos todos iguais fundamentalmente por nossa humanidade. Ao mesmo tempo, como se manifestam identidades diferentes nessa igualdade? Por exemplo: precisamos de leis que explicitamente garantam direitos de cidadãos LGBT?
- Fraternidade - É necessária a introdução de alguma noção de responsabilidade coletiva. Isto é, a liberdade individual deve vir acompanhada de responsabilidades coletivas.
As constituições também foram uma espécie de "garantia", uma espécie de "contrato imutável" que limitava o abuso de poder dos soberanos. (isto é, o Rei não pode fazer tudo o que quiser)
Talvez a parte mais interessante para mim tenha sido o fato de essas constituições articularem direitos (humanos) fundamentais sem a justificativa religiosa. No caso Francês, por exemplo (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de Agosto de 1789), achei interessante a expressão "Ser Supremo" ( "En conséquence, l'Assemblée nationale reconnaît et déclare, en présence et sous les auspices de l'Être Suprême, les droits suivants de l'homme et du citoyen." ) E o pessoal era ateu!
O professor Laqueur comenta as diversas Constituições europeias e Estadonidenses do século XVIII. Aprendi que as Constituições nasceram de uma necessidade de se criar leis que fossem acima de quaisquer outras leis, garantindo princípios fundamentais do indivíduo. Um princípio fundamental que está em quase todas essas cartas é o da igualdade ("dos homens"). Na verdade, podemos sumarizar a motivação para essas cartas no lema da Revolução Francesa: liberté (liberdade), égalité (igualdade), fraternité (fraternidade).
- Liberdade - por princípio fundamental (garantido por lei), as pessoas são e devem ser livres.
- Igualdade - noção de que todos/as são iguais, têm o mesmo "valor" humano intrínseco. (Assim, já não dá para justificar mais os Aristrocatas que não fazem nada. ) (Lembro-me de uma citação de Roberto Campos no livro "As Veias Abertas da América Latina" - e aqui parafraseio porque não estou com o livro em mãos - onde diz que os países pobres assim o são porque são predestinados a sofrer como tais. )
A noção de igualdade ainda me parece difícil de desempacotar. Sim, por um lado somos todos iguais fundamentalmente por nossa humanidade. Ao mesmo tempo, como se manifestam identidades diferentes nessa igualdade? Por exemplo: precisamos de leis que explicitamente garantam direitos de cidadãos LGBT?
- Fraternidade - É necessária a introdução de alguma noção de responsabilidade coletiva. Isto é, a liberdade individual deve vir acompanhada de responsabilidades coletivas.
As constituições também foram uma espécie de "garantia", uma espécie de "contrato imutável" que limitava o abuso de poder dos soberanos. (isto é, o Rei não pode fazer tudo o que quiser)
Talvez a parte mais interessante para mim tenha sido o fato de essas constituições articularem direitos (humanos) fundamentais sem a justificativa religiosa. No caso Francês, por exemplo (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de Agosto de 1789), achei interessante a expressão "Ser Supremo" ( "En conséquence, l'Assemblée nationale reconnaît et déclare, en présence et sous les auspices de l'Être Suprême, les droits suivants de l'homme et du citoyen." ) E o pessoal era ateu!
Friday, March 25, 2011
Albert Camus e o valor de viver
Li em "Introducing Philosophy" por Robinson & Groves.
Albert Camus nasceu na Algéria em 1913. Como você pode afirmar significado em um universo sem sentido? Camus ilustra isso com o mito de Sísifo. Sífifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra montanha acima, a qual rolava para baixo de novo, e assim sucessivamente, para sempre. Ele diz: "Julgar se vale à pena ou não viver a vida consiste em responder à pergunta fundamental da filosofia". Contudo se perguntado se o suicídio seria a única saída, Camus diz que não, que a revolta seria a única alternativa.
Sísifo escolhe dar sentido à sua tarefa e assim ela ganha sentido. Mas convenhamos, faz sentido essa tarefa de Sísifo? Como podemos nós quantificar ou qualificar esta tarefa? Francamente, essa tarefa não faz sentido. Sísifo enganou-se a si mesmo.
Gosto dessa boa dose de pessimismo de Camus. Ela contrasta com a receita dos crentes de prescrever ao indivíduo uma receita de melhoria do caráter e da moral. A história de Sísifo desafia a afirmação vaga do crente de que "tudo tem um propósito" e de que "fomos criados para adorar ao Criador". Ou pior ainda: crente com propósito!
Albert Camus nasceu na Algéria em 1913. Como você pode afirmar significado em um universo sem sentido? Camus ilustra isso com o mito de Sísifo. Sífifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra montanha acima, a qual rolava para baixo de novo, e assim sucessivamente, para sempre. Ele diz: "Julgar se vale à pena ou não viver a vida consiste em responder à pergunta fundamental da filosofia". Contudo se perguntado se o suicídio seria a única saída, Camus diz que não, que a revolta seria a única alternativa.
Sísifo escolhe dar sentido à sua tarefa e assim ela ganha sentido. Mas convenhamos, faz sentido essa tarefa de Sísifo? Como podemos nós quantificar ou qualificar esta tarefa? Francamente, essa tarefa não faz sentido. Sísifo enganou-se a si mesmo.
Gosto dessa boa dose de pessimismo de Camus. Ela contrasta com a receita dos crentes de prescrever ao indivíduo uma receita de melhoria do caráter e da moral. A história de Sísifo desafia a afirmação vaga do crente de que "tudo tem um propósito" e de que "fomos criados para adorar ao Criador". Ou pior ainda: crente com propósito!
Thursday, March 24, 2011
Kurt Gödel e a Matemática
Li em "Introducing Philosophy" por Robinson & Groves.
Kurt Gödel demonstrou que sempre haverá verdades matemáticas que permanecerão impossíveis de serem provadas em qualquer sistema lógico auto-consistente. Qualquer sistema formal pode ser consistente ou completo, mas não ambos.
Comentário do Gustavo: acho isso incrível (no sentido de fantástico) para a ciência. Minha intuição dizia que era mais fácil achar consistência e coerências na Matemática - e por conseguinte, nas ciências "exatas" - do que nas ciências sociais.
Kurt Gödel demonstrou que sempre haverá verdades matemáticas que permanecerão impossíveis de serem provadas em qualquer sistema lógico auto-consistente. Qualquer sistema formal pode ser consistente ou completo, mas não ambos.
Comentário do Gustavo: acho isso incrível (no sentido de fantástico) para a ciência. Minha intuição dizia que era mais fácil achar consistência e coerências na Matemática - e por conseguinte, nas ciências "exatas" - do que nas ciências sociais.
Frege banaliza a matemática
Li em "Introducing Philosophy" por Robinson & Groves:
Frege desmistificou a matemática demonstrando que números não são "objetos" como girafas.
Para Frege, "2+2 = 4" é uma "tautologia" (definição do dicionário: repetição inútil da mesma ideia em termos diferentes). Não tem nada a ver com nossas observações do mundo nem de como nossas mentes são construídas.
Frege desmistificou a matemática demonstrando que números não são "objetos" como girafas.
Para Frege, "2+2 = 4" é uma "tautologia" (definição do dicionário: repetição inútil da mesma ideia em termos diferentes). Não tem nada a ver com nossas observações do mundo nem de como nossas mentes são construídas.
Dialética de Hegel - parte II
(Continuando a pensar sobre Hegel em "Introducing Philosophy" por Robinson & Groves. Pensamentos aleatórios do Gustavo.)
Considerando a série de teses e antíteses que se desenrolam ao longo da história, a motivação mais interessante para mim não é tanto a busca por um conceito correto, mas a indagação dos porquês e das finalidades das teses e antíteses.
Se para Hegel a realidade é constituída pela mente e é sua criação, então não há distinção nem limite entre o objeto pensado nem a forma, isto é, o método que o acessa.
Considerando a série de teses e antíteses que se desenrolam ao longo da história, a motivação mais interessante para mim não é tanto a busca por um conceito correto, mas a indagação dos porquês e das finalidades das teses e antíteses.
Se para Hegel a realidade é constituída pela mente e é sua criação, então não há distinção nem limite entre o objeto pensado nem a forma, isto é, o método que o acessa.
Wednesday, March 23, 2011
Dialética de Hegel
Li em "Introducing Philosophy" por Robinson & Groves. Achei bem interessante.
Hegel acreditava que as ideias crescem e gradualmente movem na direção de uma melhor compreensão da realidade em um processo chamado de dialético.
A História é sempre sobre a luta entre conceitos dinâmicos diferentes que reivindicam ser uma descrição precisa da realidade. Mas qualquer conceito ou tese fará automaticamente nascer sua oposição, ou antítese e uma contenda entre elas ocorrerá, até que uma síntese mais elevada, mais verdadeira será alcançada.
Este novo conceito, por sua vez, gerará sua própria antítese, e assim o processo continuará inexoravelmente até "a ideia absoluta" ser alcançada.
O estudo da História, pensou Hegel, eventualmente revelaria algo tipo a mente de Deus.
... Ele era um "Idealista" como Kant, e concordava com ele que nós nunca experimentamos o mundo diretamente pelos nossos sentidos, mas sempre de uma forma que envolve mediaçãou ou filtragem por nossa consciência. Hegel foi mais longe.
"A realidade é constituída pela mente e é sua criação. Não existe um mundo "numenal".
A consciência humana nunca é fixa mas está continuamente mudando e desenvolvendo novas categorias e conceitos. Eles determinam como nós experimentamos o mundo, de forma que o conhecimento é sempre contextualmente dependente e sempre o resultado de uma série de posições conflitantes.
(tradução livre do Gustavo)
É interessante o conceito de teses e antíteses. O conceito de evolução é compreensível na época de Hegel. Mas por que a suposição de que essa tensão entre tese e antítese evolui para algo melhor? Não penso ser o caso. O autor comenta depois:
"Hoje parece um tanto duvidoso que a história humana tenha um "destino" previsível ou um propósito último de um tipo Hegeliano ou de qualquer tipo.
"
Hegel acreditava que as ideias crescem e gradualmente movem na direção de uma melhor compreensão da realidade em um processo chamado de dialético.
A História é sempre sobre a luta entre conceitos dinâmicos diferentes que reivindicam ser uma descrição precisa da realidade. Mas qualquer conceito ou tese fará automaticamente nascer sua oposição, ou antítese e uma contenda entre elas ocorrerá, até que uma síntese mais elevada, mais verdadeira será alcançada.
Este novo conceito, por sua vez, gerará sua própria antítese, e assim o processo continuará inexoravelmente até "a ideia absoluta" ser alcançada.
O estudo da História, pensou Hegel, eventualmente revelaria algo tipo a mente de Deus.
... Ele era um "Idealista" como Kant, e concordava com ele que nós nunca experimentamos o mundo diretamente pelos nossos sentidos, mas sempre de uma forma que envolve mediaçãou ou filtragem por nossa consciência. Hegel foi mais longe.
"A realidade é constituída pela mente e é sua criação. Não existe um mundo "numenal".
A consciência humana nunca é fixa mas está continuamente mudando e desenvolvendo novas categorias e conceitos. Eles determinam como nós experimentamos o mundo, de forma que o conhecimento é sempre contextualmente dependente e sempre o resultado de uma série de posições conflitantes.
(tradução livre do Gustavo)
É interessante o conceito de teses e antíteses. O conceito de evolução é compreensível na época de Hegel. Mas por que a suposição de que essa tensão entre tese e antítese evolui para algo melhor? Não penso ser o caso. O autor comenta depois:
"Hoje parece um tanto duvidoso que a história humana tenha um "destino" previsível ou um propósito último de um tipo Hegeliano ou de qualquer tipo.
"
Tuesday, March 22, 2011
Direitos Humanos - comentários aleatórios - parte 1
Este post comenta a aula 3 sobre Direitos Humanos da Universidade da Califórnia em Berkley. O curso inteiro está disponível na Internet. Link aqui. As aulas foram dadas pelo professor Thomas W. Laqueur.
Nesta aula, o convidado especial é o prof. Kinch Hoekstra. E o tópico é direitos humanos antes de "Direitos Humanos". Isto é, até o século XVIII.
Hoekstra comenta como era comum a ideia de direito do vencedor, onde depois de uma guerra o vencedor tinha direitos morais e absolutos sobre os vencidos para fazer o que quisessem com eles. Um pensamento assustador. Em quais povos e em quais momentos na História moderna poderíamos identificar este sentimento? Eu diria no Colonialismo europeu, por exemplo. A ideia dos Estados Unidos de direito sobre Cuba nos séculos XIX e XX (mesmo sem ganhar a guerra, os EUA sentiram ter direito sobre a ilha.)
Mais adiante, Hoekstra e Laqueur comentam sobre Cristandade, que vem justamente atrelada a ideia de domínio. Isto é, direito divino sobre o outro.
Outra ideia claramente explicada por Hekstra é a da justificativa de "inferioridade moral com base natural" de outro povo usada para subjugá-lo. Laqueur muito oportunamente também comentou como o próprio discurso de "humanidade inata" ou "humanidade geral" pode ser adulterado para justificar crimes contra um povo, ou minoria. Por exemplo: os índios da América têm alma (caso específico: os índios da América na discussão Bartolomé de las Casas versus Sepúlveda) (esqueci a bula Papal). Já que eles têm alma, então temos o dever moral de convertê-los e salvá-los do Inferno.
Não precisamos ir muito longe. Note como o vídeo do pastor Paschoal Piragine Jr retrata índios brasileiros. Note também como os gays são caricaturados por evangélicos e católicos.
Nesta aula, o convidado especial é o prof. Kinch Hoekstra. E o tópico é direitos humanos antes de "Direitos Humanos". Isto é, até o século XVIII.
Hoekstra comenta como era comum a ideia de direito do vencedor, onde depois de uma guerra o vencedor tinha direitos morais e absolutos sobre os vencidos para fazer o que quisessem com eles. Um pensamento assustador. Em quais povos e em quais momentos na História moderna poderíamos identificar este sentimento? Eu diria no Colonialismo europeu, por exemplo. A ideia dos Estados Unidos de direito sobre Cuba nos séculos XIX e XX (mesmo sem ganhar a guerra, os EUA sentiram ter direito sobre a ilha.)
Mais adiante, Hoekstra e Laqueur comentam sobre Cristandade, que vem justamente atrelada a ideia de domínio. Isto é, direito divino sobre o outro.
Outra ideia claramente explicada por Hekstra é a da justificativa de "inferioridade moral com base natural" de outro povo usada para subjugá-lo. Laqueur muito oportunamente também comentou como o próprio discurso de "humanidade inata" ou "humanidade geral" pode ser adulterado para justificar crimes contra um povo, ou minoria. Por exemplo: os índios da América têm alma (caso específico: os índios da América na discussão Bartolomé de las Casas versus Sepúlveda) (esqueci a bula Papal). Já que eles têm alma, então temos o dever moral de convertê-los e salvá-los do Inferno.
Não precisamos ir muito longe. Note como o vídeo do pastor Paschoal Piragine Jr retrata índios brasileiros. Note também como os gays são caricaturados por evangélicos e católicos.
Tuesday, March 15, 2011
Monday, March 14, 2011
Salvando llamas para Jesus - parte 4
Hoje soube de um pastor de 30 anos que começa seu trabalho em um bairro muito pobre em uma capital brasileira. Este pastor está orando para saber "como alcançar as pessoas" do bairro. É um pouco como o peixe procurando por água. É um pouco como a pessoa que está com sede e quer tomar Coca-cola.
Friday, March 11, 2011
Weber e o Espírito do Capitalismo, parte 3
"A economia capitalista de hoje é um imenso cosmo no qual o indivíduo nasce, e o qual se apresenta a ele, pelo menos como indivíduo, como uma ordem inalterável das coisas na qual ele deve viver. Ela força o indivíduo, desde que ele esteja involvido no sistema de relações de mercado, a se conformar às regras capitalistas de ação. O fabricante que agir a longo prazo contrariamente a essas normas será inevitavelmente eliminado da cena econômica assim como o trabalhador que ou não consegue ou não se adapta a elas será jogado nas ruas sem um emprego."
Trecho do livro "The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism" por Max Weber. Página 55.
Trecho do livro "The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism" por Max Weber. Página 55.
Weber e o Espírito do Capitalismo, part deux, Calvino en passant
(ver a parte 1 aqui)
O prefácio escrito por R. H. Tawney do livro de Max Weber contém um comentário curto sobre a Genebra de Calvino. Leia também um trecho do artigo de Virgil Vaduva aqui.
Tradução livre do Gustavo novamente:
"A própria ideia de Calvino de organização social é revelada pelo sistema por ele ereto em Genebra. Foi uma teocracia administrada por uma ditadura de pastores. Na 'mais perfeita escola de Cristo jamais vista no mundo desde os dias dos Apóstolos', o domínio de vida era um coletivismo ferrenho."
Logo mais adiante, no capítulo I Weber escreve:
"O exercício do poder do Calvinismo [...] como foi imposto no século XVI em Genebra e na Escócia, entre os séculos XVI e XVII em grandes partes da Holanda, no século XVII na Nova Inglaterra, e por um tempo na própria Inglaterra, seria para nós a forma mais absolutamente insuportável de controle eclesiástico do indivíduo que poderia existir." (página 37)
O prefácio escrito por R. H. Tawney do livro de Max Weber contém um comentário curto sobre a Genebra de Calvino. Leia também um trecho do artigo de Virgil Vaduva aqui.
Tradução livre do Gustavo novamente:
"A própria ideia de Calvino de organização social é revelada pelo sistema por ele ereto em Genebra. Foi uma teocracia administrada por uma ditadura de pastores. Na 'mais perfeita escola de Cristo jamais vista no mundo desde os dias dos Apóstolos', o domínio de vida era um coletivismo ferrenho."
Logo mais adiante, no capítulo I Weber escreve:
"O exercício do poder do Calvinismo [...] como foi imposto no século XVI em Genebra e na Escócia, entre os séculos XVI e XVII em grandes partes da Holanda, no século XVII na Nova Inglaterra, e por um tempo na própria Inglaterra, seria para nós a forma mais absolutamente insuportável de controle eclesiástico do indivíduo que poderia existir." (página 37)
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