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Saturday, January 30, 2010

Teologias de Libertação: Sacro e Profano


"Ele [Cristo] derrubou todos os muros, do sacro e do profano, das convenções, do legalismo, das divisões entre os homens e entre os sexos, dos homens com Deus, porque agora todos têm acesso a Ele e podem dizer 'Abba, Pai' (Ef 3,18; cf. Gl 4,6; Rm 8,15) [...] Daí que ele não funda uma escola a mais, nem elabora um novo ritual de oração, nem prescreve uma super-moral. Mas atinge uma dimensão e rasga um horizonte que obriga tudo a se revolucionar, a se rever e a se converter."
Trecho do livro "Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo". Editora Vozes, ISBN 978-85-326-0640-2, p. 72

 "Nada que afete o homem e sua história está isento da necessidade e da possibilidade de colocar-se em submissão a Cristo, e nada, portanto, está fora da esfera do interesse cristão e missionário. A missão integral é uma consequência lógica da soberania universal de Jesus Cristo.
  Sob esta perspectiva, a missão da igreja não pode restringir-se à pregação dos princípios do evangelho. Ela é orientada pelo propósito de Deus, que se cumprirá em seu devido tempo, de 'unir sob o mando de Cristo todas as coisas, tanto no céu como na terra.' Consequentemente, ela rejeita a dicotomia entre o secular e o sagrado e se transforma em um fermento que age sobre toda a massa."
Trecho do livro "O Que é Missão Integral?" por C. René Padilla, Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9. p. 117

  Quais as diferenças que os amigos e as amigas vêem entre as duas abordagens nas características de 'fusão categórica' do secular e do sagrado? No primeiro parágrafo fica mais claro que a dicotomia entre sacro e profano é implodida por assim dizer pela pessoa de Cristo. No segundo parágrafo o fator causal não me parece tão claro, aludindo-se à autoridade de Cristo. Poder-se-ia dizer com o segundo parágrafo que a referida rejeição de dicotomia é também uma implosão?

(sobre a última citação, ver também o post "Missão Integral: missão e submissão")
  

Friday, January 29, 2010

Teologia da Libertação: A-cerca da Alienação

"Pode-se pregar de muitas maneiras sobre o Reino de Deus. Pode-se anunciá-lo como o outro mundo que Deus nos está preparando, que vem depois desta vida. Ou pode-se pregá-lo como sendo a Igreja representante e continuadora de Jesus com seu culto, sua dogmática, suas instituições e sacramentos. Estas duas maneiras colocam entre parêntesis o compromisso como tarefa de construção do mundo mais justo e participado e alienam o cristão diante do problema da opressão de milhões de nossos irmãos." (grifo meu)
 Trecho do livro "Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo". Editora Vozes, ISBN 978-85-326-0640-2, p. 36
"5 - REINO DE DEUS NÃO É SÓ ESPIRITUAL
  De tudo isso um dado resulta claro: Reino de Deus, ao contrário do que muitos cristãos pensam, não significa algo de puramente espiritual ou fora deste mundo. É a totalidade desse mundo material, espiritual e humano agora introduzido na ordem de Deus."
ibid p 43.
  Aqui estamos tocando em um ponto importante. O parágrafo começa falando da pregação sobre o Reino de Deus. Seria interessante notar que a pregação faria parte da evangelização e da missão (tanto na Teologia da Libertação quanto na Missão Integral). A parte interessante é quando começamos a pensar nos componentes da crença e da prática que corroborariam para a alienação do cristão.
  (Eu particularmente não vi ainda este tipo de ideia na Missão Integral, pelo menos articulada tão claramente. Enquanto a MI prima pela percepção de problemas sociais graves como a opressão, na literatura e nos discursos nas igrejas a evangelização como proclamação do outro mundo bem como conceitos como "culto" e "igreja" ainda parecem ser complementares à realidade social. Assim, não são alienantes, mas "parte do pacote")
  Talvez o problema não esteja no conceito de outro mundo, nem na "Igreja", nem nas instituições em si mesmos. Talvez o problema esteja em não atrelar constantemente o "outro mundo" (realidade escatológica), "Igreja", e instituições ao contexto social.
  Ainda assim, a pergunta persiste (e desconfio que seja mais epistemológica): existe algum transcendente que não aliena da realidade?
  Mesmo que várias pessoas rapidamente vão responder 'sim', acredito que o uso de linguagem transcendente (como pressuposições de conceitos como "outro mundo", ie "céu", "Deus", "culto", etc e suas ocorrências no discurso) deva estar primeiramente condicionado a um exercício sincero de percepção (e vivência) da realidade. Para que o uso de linguagem transcendente não seja um abuso, sugiro que seja condicionado a uma autocrítica com questões epistemológicas.
  (Sem ter os conceitos filosóficos muito claros, fico pensando se não seria um problema clássico de desconstrução, em que a percepção da realidade exige instrumentos que em vez de sujeitos tornam-se objetos. Não foi Caputo que disse que a desconstrução é a hermenêutica do Reino de Deus? Deve ser o meu sono.)

Teologia da Libertação: por que "não bombou" (ainda)?

   Já de início tenho que dizer que não posso aqui fazer jus ao termo "espiritualidade" pois não li ainda o livro "Mística e Espiritualidade", que foi um livro redigido depois de "Jesus Cristo Libertador". Em todo o caso, guardemos o termo para pensarmos posteriormente.
  O livro afirma:
"O acesso a Ele [Deus] não se faz primariamente pelo culto, pela observância religiosa ou pela oração. São mediações verdadeiras, mas em si ambíguas. O acesso privilegiado e sem ambiguidade se faz pelo serviço ao pobre no qual o próprio Deus se esconde anonimamente. A práxis libertadora constitui o caminho mais seguro para o Deus de Jesus Cristo."
 Trecho do livro "Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo". Editora Vozes, ISBN 978-85-326-0640-2, p. 29
  Lancei uma pergunta no Twitter: por que o pentecostalismo cresceu tanto na América Latina e a Teologia da Libertação não? Ariovaldo Ramos disse "o pent/o promove 1 espirit/e q gera dign/e pessoal e esperança, a teo pôs os pés dos pobres no chão, mas ñ comunicou espiritualid/e" [o pentecostalismo promove uma espiritualidade que gera dignidade pessoal e esperança, a teologia [da libertação] pôs os pés dos pobres no chão, mas não comunicou espiritualidade"].
  Primeiramente eu me pergunto se a Teologia da Libertação contém uma proposta de espiritualidade. Creio que sim. Até agora o livro citado acima bem como "Como Fazer Teologia da Libertação" elaboram uma teologia, sublinham enfaticamente a importância da práxis e estabelecem pontes entre a teoria e a prática. Seria interessante ler a história da Teologia da Libertação na América Latina perguntando-se se a sugestão desse trajeto foi seguida.
  Especulando arbitrariamente, listaria algumas opções:
a - O problema esteve na comunicação
b - O custo era muito alto
c - As práxis atreladas à espiritualidade eram diferentes demais ou 'livres' demais para poderem se desenvolver e morar dentro do Catolicismo Romano
d - Houve um problema de implementação na história onde não se fez a ponte entre teoria e prática de forma apropriade
e - Realmente, não há espiritualidade proposta pela Teologia da Libertação que seja atraente

Teologia da Libertação: Descontinuidades e Reconfiguração

 "[...] na Cristologia da libertação se pressupõe uma opção pela tendência dialética na análise da sociedade e pelo projeto revolucionário dos dominados. Ao dizer libertação, exprime-se uma opção bem definida que não é nem reformista nem progressista, mas exatamente libertadora implicando uma ruptura com o status quo vigente."

Trecho do livro "Jesus Cristo libertador: ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo". Editora Vozes, ISBN 978-85-326-0640-2, p. 22

"Nessa interpretação, chamada também de histórico-estrutural, a pobreza aparece como um fenômeno coletivo e além disso conflitivo exigindo, pois, sua superação num sistema social alternativo.
  A saída para essa situação, é efetivamente, a revolução entendida como a transformação das bases do sistema econômico e social. O pobre surge aqui como 'sujeito'."
Trecho do livro "Como Fazer Teologia da Libertação", Leonardo Boff, Clodovis Boff, Editora Vozes, 2007, p. 48,49

É interessante pensar na proposta de ruptura do status quo da Teologia da Libertação. Se essa "ruptura com o status quo" se traduz em violência, temos um problema. Como um Anabatista que preza pela não-violência e pela resolução de conflitos, tendo a ter hesitação de considerar opções violentas. Ao mesmo tempo, poucas vezes conseguimos contemplar a situação do próximo oprimido, vivenciando a violência impetrada a ele. Portanto não tomo conclusões simplistas. Não simplifico os dilemas éticos do problema.
  Talvez ao pensarmos nessa ruptura tenha que tomar em consideração o contexto histórico quando a Teologia da Libertação se desenvolveu. Na época dos anos 70 se respirava revolução política. O que dizer hoje depois da queda do muro de Berlim e do paradoxo dos protestos da praça de Tiananmen, que resultou em um massacre? O que dizer hoje depois da violência na Argentina nos anos 70 e 80?

 Ainda não terminei a leitura do livro citado, mas é bem interessante ver como ele aborda a relação de Jesus com os zelotes. O livro corretamente sublinha que apesar de Jesus ter 2 ou 3 discípulos zelotes, Jesus não parece ter se aderido ao movimento político. Ao contrário, Jesus fez uma grande reconfiguração no sentido filosófico do termo. Nesse sentido as rupturas além de políticas são, de forma mais abrangentes, sociais.

Thursday, January 14, 2010

Missão Integral: a classe média pergunta: "quem é o meu próximo?"

"A ação política mais efetiva, e também a mais coerente com o evangelho do reino de Deus, é a que se realiza 'desde as bases'; a que desde o princípio até o fim vê as grandes maiorias - 'os pobres' - como agentes de sua própria história, não como peões sobre um tabuleiro de xadrez." p. 77

Trecho do livro "O Que é Missão Integral?" por C. René Padilla, Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9.

Muito interessante. Gostei e assino em baixo. A Teologia da Libertação também afirma a mesma coisa ao qualificar 'os pobres' como sujeitos da própria ação política (e práxis). A minha pergunta seria: e a classe média brasileira? Como seriam, na condição de classe média, suas ações políticas e práxis? Como suas práxis moldariam 'a visão dos pobres' e o 'convívio com os pobres' não de forma estigmatizadora mas dignificante? A classe média brasileira deveria se perguntar: "quem é o meu próximo?"

Missão Integral: a realidade do meu semelhante

"Deus ama a justiça, e ninguém que tenha nascido de Deus pode permanecer indiferente diante da exploração e da injustiça, da probreza e da fome que afligem seus semelhantes." p. 76

"Creio que o que falta são, em poucas palavras, pessoas cuja vida pessoal e comunitária estejam genuinamente orientadas para o reino de Deus e sua justiça. Pessoas que creem que o propósito de Deus é unir todas as coisas sob a autoridade de Cristo [...]" p. 53

Trechos do livro "O Que é Missão Integral?" por C. René Padilla, Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9.

Realmente "ninguém que tenha nascido de Deus pode permanecer indiferente diante da exploração e da injustiça, da probreza e da fome que afligem seus semelhantes". Contudo, várias vezes as pessoas não têm autoconsciência das limitações de suas percepções da realidade. O filme "Manufacturing Consent: Noam Chomsky and the Media" demonstra isso claramente. Muito comumente a visão do semelhante é deturpada, proselitista, estigmatizada, etc. O indivíduo precisa primeiramente ter essa autoconsciência. O indivíduo também precisa caminhar com seus semelhantes, experimentando a exploração, a injustiça, a pobreza e a fome junto com seus semelhantes. Só assim há chances de perceber a realidade do outro. (Que desafio!)

Um outro problema no qual devemos pensar é o seguinte: às vezes o pensamento 'moderno' de produção em massa nos vem à mente muito rapidamente. Somos ensinados que o indivíduo é a base de tudo e que a família "é o núcleo da sociedade". O próximo passo seria pensar que características de cidades e nações inteiras são derivadas desses 'núcleos', e que é possível mudar o macro pelo micro. "Think global, act local" (ou "act loco" como já vi escrito)  O problema são as forças invisíveis. Os melhores filmes que demonstram isso são "Home" de Yann Arthus-Bertrand e "The Corporation". Mesmo que seja possível criar micro-comunidades que vivam e encarnem o reino de Deus, de onde vem a idéia de que isso automaticamente se propagaria para as grandes construções/instituições políticas?

Sobre a linguagem de submissão presente em parágrafos do livro como em "sob a autoridade" já escrevi em um post anterior.

Tuesday, January 12, 2010

Missão Integral: oração política, oração sociológica

"Daí se percebe a urgente necessidade de vincular a missão com oração, e não somente oração pessoal [...] mas também com a oração política - a que se relaciona com problemas e necessidades da vida pública." p. 64

Gostei muito da idéia. A linguagem é uma convenção social. Ao orarmos usando a linguagem, estamos não só "falando com Deus" mas com o próximo. Afinal, Jesus ensinou-nos a orar: "Pai nosso". (A quem não se incluiria a expressão "Pai nosso"? )
   Contudo, a linguagem que acontece na prática não é "apenas" política: ela é sociológica, filosófica, histórica, etc. Por mais importante e relevante que a política seja para a práxis no contexto latinoamericano, sugiro de aumentar o escopo para todos os campos do conhecimento humano ( a todos os campos da vida ), principalmente das ciências humanas.
"O Que é Missão Integral?" por C. René Padilla, Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9.

Sunday, January 10, 2010

Missão Integral: missão e submissão

"Uma missão assim será baseada na missão de Jesus Cristo, que se dedicou a ensinar e anunciar a boa nova do reino [...]. Terá como objetivo a manifestação do amor, do poder e da glória de Deus no decorrer da história. Será um instrumento para o cumprimento do propósito de Deus de colocar todas as coisas, tanto no céu como na terra, sob a autoridade de Jesus Cristo."  - p. 54

"Se a autoridade de Cristo se estende sobre toda a criação, o povo que confessa seu nome é chamado a relacionar sua fé com a totalidade da vida humana e da história. Nada que afete o homem e sua história está isento da necessidade e da possibilidade de colocar-se em submissão a Cristo [...] A missão integral é uma consequência lógica da soberania universal de Jesus Cristo." - p. 117

A linguagem de submissão é um tanto preocupante. Não fica muito claro no texto como seria uma hermenêutica em que a "submissão de todas as coisas sob a autoridade de Cristo" não seja um disfarce de uma imposição da autoridade do sujeito. Isto é, a hermenêutica implícita dá a entender uma imposição da autoridade de alguém [dos evangélicos] usurpando uma autoridade divina. A própria linguagem de submissão e autoridade é um tanto preocupante.
Contudo deve-se dizer que essa linguagem tem poucas ocorrências neste excelente livro.

"O Que é Missão Integral?" por C. René Padilla, Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9.

Missão Integral - Profissão: Teólogo

"Inicialmente, temos que admitir que, com frequência, os teólogos têm dado razões para essa atitude negativa em relação à teologia. Eles se esqueceram que seu trabalho só tem sentido se se mantiver estreitamente vinculado ao modo de ser e agir da igreja. [...] mais preocupados com seu próprio status do que com a fidelidade do evangelho. 'Profissionalizaram' a reflexão teológica e a isolaram de outras disciplinas humanas, privando-a, assim, de toda possibilidade de concreção histórica"

Página 25, "O Que é Missão Integral?" por C. René Padilla, Editora Ultimato, ISBN 978-85-7779-031-9.

O isolamento da teologia de outras áreas das Humanas é um fato realmente lamentável. Tanto na esfera dos teólogos profissionais quanto na de líderes e leigos. Este isolamento geralmente esconde uma linguagem inacessível e abstrata, questionando a relevância da 'pesquisa teológica'. Por isso a grande necessidade da Teologia Prática. Ainda é preciso haver uma conversa mais abrangente no Brasil incluindo a Filosofia, a Sociologia, a História, as Ciências Políticas, as Artes e a teologia.

Monday, January 04, 2010

Mundo, Missão, e Igreja - 2 - T.V. Philip

(continuando)

Fonte: http://www.religion-online.org/showchapter.asp?title=1573&C=1521

Leia também a parte anterior, a parte 1.


Refletindo no sentido dos eventos revolucionários que estavam acontecendo na Ásia após a 2ª Guerra Mundial, [M. M.] Thomas e seus colegas na Ásia trouxeram para o pensamento ecumênico suas convicções de que Deus, de alguma forma, está trabalhando nos eventos seculares de nosso tempo além das fronteiras da igreja. No seu pronunciamento à Assembléia de Nova Déli do World Council of Churches em 1961, Thomas falou de Cristo presente no mundo de hoje engajado em um diálogo contínuo com os povos e as nações. “É uma idéia insensata e louca”, disse ele, “pensar que Cristo trabalha apenas através da Igreja ou pessoas Cristãs. De fato a Igreja e o mundo têm o mesmo centro, Jesus Cristo, [e] é, portanto, impossível confinar o trabalho de Cristo na igreja ou através da Igreja.”

Hermenêutica da Teologia da Libertação

"Refletir a partir da prática, no interior do imenso esforço dos pobres com seus aliados, buscando inspirações na fé e no Evangelho para o compromisso contra a sua pobreza em favor da libertação integral de todo o homem e do homem todo, é isso que significa a Teologia da Libertação."

"Interrogar a totalidade da Escritura a partir da ótica dos oprimidos - tal é a hermenêutica ou a leitura específica da Teologia da Libertação.
  Digamos logo que esta não é a única leitura possível e legítima da Bíblia. Mas é para nós hoje no Terceiro Mundo a leitura privilegiada, a 'hermenêutica epocal'."

Trechos do livro "Como se Faz Teologia da Libertação" de C. Boff e L. Boff. Editora Vozes, 1985. ISBN 978-85-326-0542-9.

Motivação para Teologia da Libertação

"Certo dia, em plena seca do Nordeste brasileiro, uma das regiões mais famélicas do mundo, encontrei um bispo trêmulo, entrando casa adentro, "Sr. bispo, o que aconteceu?" E ele, afrando, respondeu que presenciara algo terrível. Encontrou uma senhora com três crianças com mais uma ao colo na frente da Catedral. Viu que estavam desmaiando de fome. A criança ao colo parecia morta. Ele disse: "Mulher, dê de mamar à criança!" "Não posso, senhor bispo!", respondeu ela. O bispo voltou a insister várias vezes. E ela sempre respondia: "Sr. bispo, não posso!" Por fim, por causa da insistência do bispo, ela abriu o seio. E estava sangrando. A criancinha atirou-se com violência ao seio. E sugava sangue. A mãe que gerou esta vida, a alimentava, como um pelicano, com sua própria vida, com seu sangue. O bispo ajoelhou-se diante da mulher. Colocou a mão sobre a cabecinha da criança. Aí mesmo fez uma promessa a Deus: enquanto perdurar a situação de miséria, alimentarei, pelo menos, uma criança com fome, por dia."

Trecho do livro "Como Fazer Teologia da Libertação" de L. Boff e C. Boff.
Editora Vozes. ISBN 978-85-326-0542-9.

Eu, K-fé, estava pensando qual seria a motivação para se fazer teologia da libertação. Lembrei-me desse e de outros exemplos do livro. A vil miséria e as injustiças sociais no Brasil - e em três quartos do mundo - seriam motivações. Quando pensamos em "ame ao seu próximo" rapidamente passamos à aplicação social do mandamento. Ao meu ver, o escopo das práxis de teologias brasileiras teriam no mínimo o mesmo da Teologia da Libertação.

Friday, January 01, 2010

A verdade - 2

(continuação)
  Há ainda os lógicos que buscam o critério da verdade na coerência interna do argumento. Verdadeiro seria então o raciocínio que não encerra contradições e é coerente com um sistema de princípios estabelecidos. [...]
   A verdade pode ainda ser entendida como resultado do consenso, enquanto conjunto de crenças aceitas pelos indivíduos em um determinado tempo e lugar e que os ajuda a compreender o real e agir sobre ele.
  [...] alguém poderá dizer - bem na linha dos positivistas - que só a ciência nos dá o conhecimento verdadeiro. [...] Por outro lado, não há como deixar de reconhecer que a ciência, sendo um conhecimento abstrato, seleciona o que lhe interessa conhecer e reduz as infinitas possibilidades do real, excluindo o sujeito com suas emoções e sentimentos.

Mundo, Missão, e Igreja - 1 - T.V. Philip

Fonte: http://www.religion-online.org/showchapter.asp?title=1573&C=1521

De Edinburgh a Salvador: Missiologia Ecumênica do Século XX por T.V. Philip.


Capítulo 4: Mundo, Missão, e Igreja

Se o período entre 1910 e 1960 viu missão descobrindo a igreja, os próximos vinte anos viram a igreja descobrindo o mundo como lócus de sua vida e missão. As principais características dos desenvolvimentos teológicos dos anos 60 foram uma série de tentativas de levar o mundo secular a sério.

... o movimento teológico presente pode ser visto em termos de um consenso animador o qual parece estar se formando sobre a natureza da igreja vis-à-vis ao mundo. A ênfase “a igreja contra o mundo” de 20 ou 30 anos atrás está agora sendo radicalmente questionada e superada por uma apreciação muito mais positiva do secular e do cultura, e em termos explicitamente Cristãos.

Esta concepção mudada do mundo teve sua correspondente em um entendimento diferente da igreja e sua missão. Teólogos começaram a perguntar se haveria algo profundamente secular, e de forma nenhuma apenas “religiosa”, sobre o próprio Evangelho. Dietrich Bonhoffer descreveu certa vez sua tarefa teológica como “dar uma interpretação não-religiosa a idéias bíblicas”. Desde 1960, uma mudança radical no pensamento eclesiológico aconteceu. A igreja como uma instituição promovendo “religião” e “religiosidade humana” recebeu críticas. A nova ênfase no mundo desafiou a até então visão eclesiocêntrica de missão que havia sido desenvolvida no International Missionary Council e o movimento ecumênico em geral. [...]

Bonhoffer (1906-1945) executado pelos Nazistas em 1945 por sua resistência a Hitler, foi um teólogo Protestante dotado. Suas cartas e papéis da prisão tiveram uma grande influência no pensamento teológico no mundo ocidental. Ele falou do mundo como tendo um amadurecimento. “O mundo que amadureceu é mais sem-Deus, e talvez por essa exata razão mais perto de Deus do que o mundo antes de seu amadurecimento.” Para Bonhoffer, viver em Cristo significava ser uma igreja que existia, não pela fé piedosa, mas para outros. M.M. Thomas (1916-1996) foi o pensador Cristão Indiano melhor conhecido neste século [XX]. Ele foi o moderador do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas de 1968 a 1975. Nos seus escritos e discursos, ele enfatizava a importância do secular para a integralidade da vida e missão da igreja. De acordo com ele, a igreja não é uma esfera de existência distinta e separada do mundo natural e da história. A igreja é nada menos do que o secular, o qual conhece sua verdadeira realidade na era nova inaugurada por Cristo. A igreja é o mundo, a qual sabe ela mesma estar em Cristo, sob o julgamento e a graça do Cristo crucificado e ressurreto. Contrastando com aqueles que construiriam a comunidade de fé como um céu no meio de uma sociedade secular, Thomas falou da igreja consistindo primariamente de leigos fazendo seus trabalhos seculares e testemunhando à verdadeira vida do secular. Ele falou da vocação laica como a base para a vocação do ministério ordenado, e do teólogo como o articulador dos pensamentos teológicos de leigos enquanto eles procuram relacionarem-se como crentes com o mundo laico.

Continua na parte 2.

Friday, December 25, 2009

A verdade - 1

'Todo conhecimento coloca o problema da verdade. Pois quando conhecemos, sempre nos perguntamos se o enunciado corresponde ou não à realidade.
 Comecemos distinguindo verdade e realidade. Na linguagem cotidiana, frequentemente os dois conceitos são confundidos. Se nos referimos a um colar, a um quadro, a um dente, só podemos afirmar que são reais e não verdadeiros ou falsos, devemos reconhecer que o "falso" colar é uma verdadeira bijuteria e o dente um verdadeiro dente postiço.
 Isso porque a falsidade ou a veracidade não estão na coisa mesma, mas no juízo, e portanto no valor da nossa afirmação. Há verdade ou não dependendo de como a coisa aparece para o sujeito que conhece. Por isso dizemos que algo é verdadeiro quando é o que parece ser.
Assim, ao beber o líquido escuro que me parecia café, descubro que o "falso" café é uma verdadeira cevada. A verdade ou falcidade existe apenas no juízo "este líquido é café", no qual se estabelece o vínculo entre sujeito e objeto, típico do processo do conhecimento.
Resta portanto saber o que [e a verdade enquanto juízo a respeito da realidade. Para os escolásticos, filósofos medievais, "a verdade é a adequação do nosso pensamento às coisas". O juízo seria verdadeiro se a representação fosse cópia fiel do objeto representado.. Essa definição sofreu posteriormente inúmeras críticas, sobretudo quando, a partir da Idade Moderna, rompeu-se a crença de que a realidade do mundo aí está para ser conhecida na sua transparência. Afinal, a questão é mais complexa: como julgar a verdade da representação do real pelo pensamento? Ou seja, como saber se a definição mesma de verdade é verdadeira? Além disso, a filosofia moderna vai questionar a possibilidade mesma de conhecimento do real.
Isso nos remete para a discussão a respeito do critério da verdade. Qual o sinal que permite reconhecer a verdade e distinguila do erro? Não pretendemos analisar passo a passo as discordâncias dos autores a respeito do assunto [...]
  Para Descartes, o critério da verdade é a evidência. Evidente é toda ideia clara e distinta, que se impõe imediatamente e por si só ao espírito. Trata-se de uma evidência resultante da intuição intelectual.
  Para Nietzsche é verdadeiro tudo o que contribui para fomentar a vida da espécie e falso tudo o que é obstáculo ao seu desenvolvimento.
  Para o pragmatismo (William James, Dewey, Perice), a prática é o critério da verdade. Nesse caso, a verdade de uma proposição se estabelece a partir de seus efeitos, dos resultados práticos.
  Nos dois últimos casos (Nietzsche e pragmatismo), o critério da verdade deixa de ser um valor racional e adquire um valor de existência, que pode ser sintetizado na frase de Saint-Exupery: "A verdade para o homem é o que faz dele um homem".'
 Trecho do livro "Filosofando: Introdução à Filosofia" de Maria de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, editora Moderna.

Saturday, December 19, 2009

Histórias Verídicas do Pajé Raoni - 9 - Fora Arruda

 A reunião tinha sido marcada para as 18:30 no McDonalds da via Monumental em Brasília. Sim, no McDonalds. Cheguei atrasado, já que a maioria das reuniões no Brasil começa atrasada. É um grupo já com nome de evangélicos que age politicamente. Vários deles vinham participando dos protestos contra os escândalos de corrupção do governador do Distrito Federal, o Arruda, e seus vários aliados. Um amigo trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco numa das áreas mais pobres da cidade. Descrevia ele como havia gravado com sua filmadora várias das manifestações. Em certa altura, os cavalos da polícia saíram correndo na direção dos manifestantes, e este amigo correu para o cavalo não atropelá-lo. Também registrou em seu vídeo o momento em que o comando policial ordena que os policiais retirem suas identificações. Assim ficava mais difícil indentificá-los enquanto batiam nas pessoas arbitrariamente. Uma outra amiga, tendo terminado bacharelado e mestrado em ciências políticas e fazendo doutorado em sociologia, trabalha também em uma das áreas mais pobres da cidade. O lixão da cidade, mais precisamente. Nesse nosso encontro ela descreveu como havia participado das manifestações. Já que estávamos perto do local de manifestação daquela noite, olhou para fora e propôs de nos juntarmos ao grupo. Tanto ela como o outro amigo descreviam as enganações que o Tenente Coronel Silva Filho da Polícia Militar usava. Uma delas incluía conversar com manifestantes feridos, sugerindo de eles irem até a ambulância enquanto levava-os para o camburão em direção da delegacia.

Monday, December 14, 2009

Pacto de Lausanne - I - Responsabilidade Social Cristã

 Estou lendo o livro "Pacto de Lausanne" comentados por John Stott (não sei bem porque "comentados" está no plural na capa do livro).
  O parágrafo 5 do Pacto de Lausanne diz em parte:

"Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam."
(grifos meus)
     
    Stott comenta:
"... houve grande expectativa no sentido de que a Assembléia da Comissão sobre Missão e Evangelização Mundiais do Concílio Mundial de Igrejas, realizada em Bangkok, em janeiro de 1973, sob o título Salvação hoje, produzisse uma definição nova, fiel às Escrituras e relevante para a atualidade. Mas Bangkok nos decepcionou. Embora se incluíssem ali algumas referências à salvação pessoal, sua ênfase foi equacionar salvação com libertação político-econômica. O Pacto de Lausanne rejeita isso, pois não é bíblico." "Salvação é libertação do mal [...]"


    Meu problema é a dicotomia de conteúdo e de essência entre "salvação" e suas manifestações tangíveis, principalmente as sociais. Se salvação não inclui a história de libertação política de povos e indivíduos, se salvação não inclui libertação existencial, se salvação não inclui libertação do eu, do outro, do mal, do credo, da morte, então esse tipo de salvação não se manifesta. Também não penso que seria correto equacionar libertação política a salvação, mas penso que libertação política é uma componente da salvação, assim como são também a vida eterna com Deus após a morte, a assistência social, e as restaurações das relações sociais.

(palavras-chaves / keywords: Lausanne, Missão Integral, Stott, teologia da libertação) 

Monday, December 07, 2009

Saturday, November 28, 2009

Histórias Verídicas do Pajé Raoni - 8 - Aqui Não

 Esta semana meus pais conheceram um certo homem que por acaso foi a igreja deles. Ele saiu do Guará para ir até esta Grande Igreja no Plano Piloto em Brasília apresentar seu projeto. Em suma, ele tentou ir além de assistencialismo para também ouvir várias pessoas em más condições sociais e financeiras. E para tanto pediu um salão da igreja. Mas não podia ser nem o santuário nem o salão principal, porque conforme a resposta não ficava bem se misturarem os "ricos" com os "pobres".
  O ocorrido me faz lembrar a história do Natal. Afinal, não havia lugar para José, Maria e Jesus porque eram pobres. Também lendo Mateus 25, parece-me que não há lugar para Jesus em várias igrejas.

Sunday, November 22, 2009

Carta a Um Teólogo - parte 5 - Linguagem Fechada

Caro teólogo inexistente,
  Ao ouvir a maioria dos conceitos santos eu apago-os e reconfiguro-os na minha cabeça. Isto porque preciso saber que esta linguagem não é fechada, mas aberta. Preciso saber que as palavras não definem os conceitos, mas o contrário. Porque a semântica é definida coletivamente. Preciso saber que nós não definimos os conceitos, mas eles simplesmente existem (ou não). Preciso saber se isto é uma imposição violenta ou uma conversa. Preciso saber se isso é invenção da sua cabeça ou se existe algo que transcende o "Eu" e o "Nós". Caro teólogo, se o senhor não sabe do que está falando, ou fique uns minutos em silêncio ou aceite humildemente a falibilidade e a inadequação das suas sentenças.

Éticaestética

Saturday, October 31, 2009

"Home" de Yann Arthus-Bertrand

   Hoje assisti ao filme "Home" de Yann Arthus-Bertrand. Tem em Português. É muito bom. O filme aborda vários problemas globais, incluindo principalmente o meio-ambiente e a economia. O filme é feito quase que inteiramente de tomadas aéreas e com narração. As tomadas aéreas me remetem a pensar na coletividade social das nossas ações. Assim, já não somos indivíduos, mas vivemos em sociedade. E convivendo nos nossos agrupamentos sociais imediatos várias vezes não nos damos conta dos vários sistemas e forças atuantes no mundo como um todo. É como se essas forças estivessem escondidas. A mudança de paisagens para vários lugares do mundo diferentes reforça a idéia de efeito global de nossas ações (ou falta delas).
   As igrejas protestantes deram grande ênfase à fé pessoal em Jesus, e teologicamente devem estar certas. Contudo, será que junto com essa ênfase teológica não vieram o individualismo e o consumismo da modernidade moldando as igrejas como um grupo de vários indivíduos independentes? Penso que sim. Uma consequência é a dificuldade de haver comprometimento mútuo no construir das igrejas. Outra consequência seria a dificuldade de ver esses sistemas e forças globais que agem para oprimir o ser humano hoje.
  A igreja pensou que o moralismo seria a força mantenedora da sociedade. Devemos lembrar que a moral seria um meio e não um fim. De que nosso compromisso moral deveria ser para com as pessoas diretamente, buscando primariamente a vida, e a vida em abundância (digna). Esse moralismo por si só falha hoje em dia em manter a vida. A igreja precisa pensar em uma ética aplicada que seja mais eficaz na preservação da vida.

Thursday, October 29, 2009

The Myth of Colonial Intents

"It's important to remember that the United States is the only country in the world that was founded was an empire. George Washington described it as a rising empire and because of that they had to conquer the national territory - this is imperialism - they didn't have to cross the oceans, but besides that, it's the standard imperialism. They practically exterminated the population that lived in these territories and stole half of Mexico's land"
- Noam Chomsky here  (I'm translating back to English from Portuguese from Spanish...)

I often hear that the United States were a country with origins in which its colonial inhabitants worked towards cultivation, whereas Brazil was an aftermath of colonial exploitation. Could that be a myth that we accepted too promptly? I believe so, and I have to stop and rethink History as I learned.
  The consequence of the United States being a country with the seeds of cultivation would be that there was a project of country in which "the other" was seen as a partner in the nation building process. Well, I think that the treatment of Native Americans, Mexicans and Africans proves that wrong.

Friday, October 16, 2009

Linguagem Evangélica: misturando-se com o mundo?

Na primeira aula sobre "Sociedade e Cultura" no seminário presbiteriano, um colega estudante reagiu a um comentário do professor. O professor estava descrevendo como era necessário o crente se envolver com a cultura. O colega pediu a palavra e explicou:
"O problema é que nem todos sabem até onde ir nesse envolvimento. Afinal nós estamos no mundo mas não somos do mundo. Uma analogia que eu ouvi uma vez foi essa: imagine uma pessoa no fundo do poço. Alguém pode se precipitar e se atirar no poço. Mas ele se esqueçe que pode atirar a corda. Da mesma forma hoje algumas pessoas abusam da desculpa de se envolver com o mundo."
   O professor respondeu dizendo que "mundo" é um sistema perverso, etc.
  O meu problema é com o quadro que a analogia propõem. A analogia de "atirar uma corda" propõem um crente-santo-salvo numa boa distante do não-crente-desesperado. O crente-santo-salvo detém a corda e a capacidade de salvar. Ele está no poder e no controle. Ele é superior porque está lá em cima e o não-crente-desesperado lá embaixo. Este crente-santo-salvo acha uma solução muito higiênica! Ele não precisa se sujar para salvar. Basta jogar a corda. Se tivesse um controle remoto seria melhor ainda.
  A encarnação de Jesus nega a analogia. Na encarnação Deus se dá completamente. Deus não envia uma corda lá das nuvens para salvar os pecadores. Deus se faz ser humano e convive conosco. Ele desce ao poço. Na parábola do bom pastor, Jesus deixa as 99 ovelhas e sai à procura daquela uma que se perdera. O amor de Jesus é radical. Se dá completamente em favor do outro.

Sunday, October 11, 2009

Linguagem Não-Evangélica e Não-Religiosa

  Como dei a entender antes quando comentava sobre o que flui entre dois grupos sociais, os evangélicos parecem ter uma grande dificuldade com o conteúdo dessa conversa. O que flui acaba sendo chamado de "convite-à-aceitação-de-Jesus" com nenhuma relação com o tangível.   O exercício que proponho é de um repensar da linguagem. (Ins-pirado pela Monja Guerrilleira) E aqui não me restrinjo a "evangelização" de forma alguma!
Por exemplo, vamos entreter por um momento uma linguagem não-evangélica e não-religiosa. Que tal tentar? Tentemos articular conceitos como vida, Deus, salvação, fé, o outro, relações sociais, História, amor, alegria, e tristeza sem usar nenhuma expressão evangélica ou religiosa. Tentemos expressar nossos anseios, nossa fé, nossa cosmovisão, nossos desejos, nossas alegrias, enfim, tudo com pura poesia na linguagem do povo, sem nenhuma palavra da religião ou do cristianismo. Façamos isso não como um exercício de negação da fé cristã nem de negação da história cristã, nem como birra infantil, nem como pseudo-rebeldia gratuita, mas como um exercício sério de expressão dessa fé.
  Abramos espaço para D*us em nossas vidas!

The emerging church in Latin America: Christ present in the other 3

"We can say that it [the libertarian spirituality] expresses itself in a demanding lifestyle, radical even, that:
 - assumes a simple way of life, but not naïve;
 - experiences the grace of God as an opening to the suffering, debilitated, despised other and seeks a respectful approximation;
- understands the struggle for justice and transformation of structures as a challenge to faith itself and not as something optional;
- understands conversion as a continuous process of change of mentality and attitudes, from the interpellation of God in the other, in whom Christ presents himself to us sub contrario;
- learns to live with the doubt and the uncertainty, without losing to them;
- opens up to the diversity of human reality, taking advantage of the interpretations of other sciences besides theology;
- resists temptation and because of that learns not to judge others, but to perceive the radicalness of what it means to love its neighbour as oneself.
- learns to listen to the word of God and to hear the other with double attention.
"



Roberto E. Zwetsch "Missão no horizonte do Reino" in "Teologia Prática no Contexto da América Latina"
ISBN 85-233-0467-3
ASTE, Sinodal Press

Igreja emergente: Cristo presente no outro V

"Podemos dizer que ela [a espiritualidade libertadora] se expressa num estilo de vida exigente, radical até, que:
- assume um modo de vida simples, mas não ingênuo;
- experimenta a graça de Deus como abertura ao outro sofredor, debilitado, desprezado e busca uma aproximação respeitosa;
- entende a luta por justiça e transformação de estruturas como desafio à própria fé e não como algo opcional;
- compreende a conversão como processo contínuo de mudança de mentalidade e atitudes, a partir da interpelação de Deus no outro, no qual Cristo se nos apresenta sub contrario;
 - aprende a conviver com a dúvida e a incerteza, sem sucumbir a elas;
- se abre à diversidade da realidade humana, valendo-se das interpretações de outras ciências além da teologia;
- enfrenta a tentação e por isso aprende a não julgar os outros, mas a perceber a radicalidade do que significa amar o próximo como a si mesmo.
- aprende a ouvir a palavra de Deus e a ouvir o outro com atenção redobrada.
" (negrito meu)

Missão no horizonte do Reino, Roberto E. Zwetsch em "Teologia Prática no Contexto da América Latina", ASTE, Editora Sinodal

The emerging church in Latin America: Christ present in the other 2

" One proposal of evangelizing practice that appears in the evangelical ranks at the end of the 70s is worth highlighting. It is the pastoral of coexistence [39]. Inspired in Roman Catholic models, as for example the experience of labour fathers or the theology of the hoe that took place in the countryside of the Northeast [Brazil], or more remotely in the communities of evangelical life of the moravian bretheren, many groups of evangelicals sought to embed themselves in the popular milieus to try a new form of evangelizing presence. They ranked students, members of communities and pastors [male & female]. There were groups that left to live in neighbourhoods and urban suburbs, maintaining themselfs with the work in factories, other chose to live in rural zones, practicing subsistence agriculture, fostering the associations and cooperation, besides participating in worker's unions. One third option was the work alongside indigenous communities, developing this way a redefinition of traditional mission. [...]


The pastoral of coexistence was understood as process of missionary reeducation, through which the christian mission seeks to embed itself in the world from the viewpoint of the other, committing to his life and drawing from there all the consequences [40]. They sought to renew not only the sense of the mission, but to recup part of the lost credibility with the centuries of oppression and devaluation of the other. [...] The spirit of the gospel guided missionaries [men and wonen] to walk together with the other, sharing their struggles, pains, weaknesses and victories, and celebrating all that in a new liturgy/koinonia. The coexistence and the solidarity triggered a series of other services. In some cases, the work yielded the formation of ecumenical communities that still today present a challenge. The pastoral of coexistence assumes an act of trust in the other. The dialog as method overcomes the mentality of conquest, for it happens starting from symetric and solidary relations which have as base the struggle for the rescue of life. Among its unfoldings are the rereading of the biblical witness and a new valuation of the gospel as a way/message of liberty and liberation.

[39]Cf. Roberto E. Zwetsch, Missão e alteridade, p. 159-175; [...]
[40] Cf. Lori Altmann, Convivência e solidariedade, p. 47-49"
"

Roberto E. Zwetsch "Missão no horizonte do Reino" in "Teologia Prática no Contexto da América Latina"
ISBN 85-233-0467-3
ASTE, Sinodal Press

The emerging church in Latin America: Christ present in the other

"Gustavo Gutiérrez, Las Casas: In Search of the Poor of Jesus Christ. In this excelent study about Las Casas, Gutiérrez presents the thesis that, in the conquered [Latin] America, the indians are seen as "beaten Christs" and that the Christ of God identifies himself with the martyred indian. Thus, if we want to approach the face of Christ, there is only one way: from the Christ present in the other."  
Roberto E. Zwetsch "Missão no horizonte do Reino" in "Teologia Prática no Contexto da América Latina"
ISBN 85-233-0467-3
ASTE, Sinodal Press

Igreja emergente: Cristo presente no outro IV

"A teologia latino-americana tem uma característica própria. Sua novidade está no fato de nascer como uma caminhada espiritual que se faz como e em meio ao povo de Deus, sobretudo entre os mais pobres desse povo. Gustavo Gutiérrez afirma que a espiritualidade é a nossa metodologia. Na base da reflexão teológica está um encontro com Jesus Cristo, que nos interpela de modo particular no rosto do outro. *
 Tal experiência tem sido descrita como uma caminhada de seguimento ou discipulado. Seguir os passos de Jesus na América Latina, numa realidade conflitiva, de opressão, miséria, morte, com enormes contrastes entre riqueza e pobreza, implica opções concretas em favor da justiça, da liberdade e de uma concepção ativa de luta pela paz. Essas opções não são fáceis. Requerem despojamento, conversão e exercício da misericórdia enquanto solidariedade permanente, sem os quais o discurso religioso acerca da justiça do reino de Deus se torna vazio, comprometendo o testemunho do evangelho e sua credibilidade."

"Evangelho, missão e culturas - o desafio do século XXI", Roberto E. Zwetsch
Em "Teologia Prática no Contexto da América Latina", ASTE, Editora Sinodal

*Gutiérrez, Beber no próprio poço

Igreja emergente: Cristo presente no outro III

"Uma proposta de prática evangelizadora que surge nos meios evangélicos no final dos anos 70 merece destaque. Trata-se da pastoral de convivência[39]. Inspirada em modelos católicos romanos, como, p. ex., a experiência dos padres operários ou a teologia da enxada que se realizou no interior do Nordeste, ou mais remotamente nas comunidades de vida evangélica dos irmãos morávios, vários grupos de evangélicos buascaram se inserir nos meios populares para tentar uma nova forma de presença evangelizadora. Eram formados por estudantes, membros de comunidade e pastores/as. Houve grupos que partiram para viver em bairros e periferias urbanas, sustentando-se com o trabalho em fábricas, outros optaram por se localizar em zonas rurais, praticando agricultura de subsistência, incentivando o associativismo e o cooperativismo, além de participarem dos sindicados de trabalhadores. Uma terceira opção foi o trabalho junto a comunidades indígenas, desenvolvendo-se aí uma redefinição da missão tradicional. [...]
  A pastoral de convivência foi entendida como um processo de reeducação missionária, através do qual a missão cristã procura se colocar no mundo a partir do ponto de vista do outro, comprometendo-se com sua vida e tirando daí todas as conseqüências [40]. Buscava-se não apenas renovar o sentido da missão, mas recuperar parte da credibilidade perdida com séculos de opressão e desvalorização do outro. [...] O espírito do evangelho conduzia missionárias/os a caminhar junto com o outro, compartilhando suas lutas, dores, fraquezas e vitórias, e celebrar tudo isso numa nova liturgia/koinonia. A convivência e a solidariedade desencadearam uma série de outros serviços. Em alguns casos, o trabalho desembocou na formação de comunidades ecumênicas que ainda hoje representam um desafio. A pastoral de convivência pressupõe um ato de confiança no outro [...] O diálogo como método supera a mentalidade de conquista, pois se dá a partir de relações simétricas e solidárias que têm por base a luta pelo resgate da vida. Entre seus desdobramentos estão a releitura do testemunho bíblico e uma revalorização do evangelho como caminho/mensagem de liberdade e libertação.

[39]Cf. Roberto E. Zwetsch, Missão e alteridade, p. 159-175; [...]
[40] Cf. Lori Altmann, Convivência e solidariedade, p. 47-49"  (negrito meu)

Evangelho, missão e cultura, por Roberto E. Zwetsch

em "Teologia Prática no Contexto da América Latina", ASTE, Editora Sinodal

Igreja emergente: Cristo presente no outro II

Consideremos uma comunidade de fé como um grupo social. Imaginemos, para motivos de exemplo, que as relações nesse grupo já tenham história, que esse grupo seja auto-consciente e que, assim, tenha já uma identidade (Igreja de Nome Tal e Tal, por exemplo). Quando esse grupo interage com pessoas de fora dele, o que está na mesa? O que flui entre a membrana dessas duas partes e em que direção?
Tomemos uma resposta temporária: flui "o evangelho da vida de Jesus Cristo". Sim, mas que evangelho é esse? Que boas-notícias são essas? Essa boa-notícia, seja lá qual for, deve ser vivida, baseada e associada a tudo o que flui entre os dois grupos. Esse "evangelho" não deve ser algo abstrato e espiritualizado, mas uma boa-notícia na prática que diz respeito a coisa com coisa. Esse "evangelho" deve se manifestar nas relações políticas, culturais e econômicas e de pura amicabilidade entre os indivíduos. E ainda, esse "evangelho" flui nas duas direções, porque é um diálogo.

Igreja emergente: Cristo presente no outro

 "Gustavo Gutiérrez, Em busca dos pobres de Jesus Cristo: o pensamento de Bartolomeu de Las Casas. Neste excelente estudo sobre Las Casas, Gutiérrez apresenta a tese de que, na América conquistada, os índios são como "Cristos açoitados" e que o Cristo de Deus se identifica com o índio martirizado. Assim, se quisermos nos aproximar do rosto de Cristo, só há um caminho, a partir do Cristo presente no outro."

Missão no horizonte do Reino, Roberto E. Zwetsch em "Teologia Prática no Contexto da América Latina", ASTE, Editora Sinodal

Cristo presente no outro é uma visão necessária tanto para o indivíduo como para uma igreja (Mateus 25.37-40). É necessário pensar na prática e nas implicações de tal atitude. Como incluir o outro no centro de nossas vidas? Como essa atitude mudaria os nosso contatos sociais?

Thursday, October 01, 2009

How to use the DnsQuery function (Windows Server 2008 R2)

There's a nice article on Microsoft's Support web site titled "How to use the DnsQuery function to resolve host names and host addresses with Visual C++ .NET" ( here ). The problem is that the signature of the DnsQuery Function has changed. The first argument takes a PCTSTR instead of a char * type.
I decided to rewrite the application using PCTSTR. Here's the new version:


#include //winsock
#include //DNS api's
#include //standard i/o
#include

//Usage of the program
void Usage(char *progname) {
fprintf(stderr,"Usage\n%s -n [HostName|IP Address] -t [Type] -s [DnsServerIp]\n",progname);
fprintf(stderr,"Where:\n\t\"HostName|IP Address\" is the name or IP address of the computer ");
fprintf(stderr,"of the record set being queried\n");
fprintf(stderr,"\t\"Type\" is the type of record set to be queried A or PTR\n");
fprintf(stderr,"\t\"DnsServerIp\"is the IP address of DNS server (in dotted decimal notation) ");
fprintf(stderr,"to which the query should be sent\n");
exit(1);
}


char* WChar2char(wchar_t * src, char * ppDest) {
size_t convertedChars = 0;
size_t origsize = wcslen(src) + 1;
wcstombs_s(&convertedChars, ppDest, origsize, src, _TRUNCATE);
return (char*)ppDest;
}

void Char2Wchar(char* src, wchar_t * ppDest) {
size_t convertedChars = 0;
size_t origsize = strlen(src) + 1;
mbstowcs_s(&convertedChars, ppDest, origsize, src, _TRUNCATE);
}

void ReverseIP(wchar_t* pIP)
{
wchar_t seps[1]; seps[0] = (wchar_t)'.';
wchar_t *token;
char pIPSec[4][4];
int i=0;
token = wcstok( pIP, seps);
while( token != NULL )
{
/* While there are "." characters in "string" */
sprintf(pIPSec[i],"%s", token);
/* Get next "." character: */
token = wcstok( NULL, seps );
i++;
}
swprintf(pIP,L"%s.%s.%s.%s.%s", pIPSec[3],pIPSec[2],pIPSec[1],pIPSec[0],"IN-ADDR.ARPA");
}


// the main function
void __cdecl main(int argc, char *argv[])
{
DNS_STATUS status; //Return value of DnsQuery_A() function.
PDNS_RECORD pDnsRecord; //Pointer to DNS_RECORD structure.
PIP4_ARRAY pSrvList = NULL; //Pointer to IP4_ARRAY structure.
WORD wType; //Type of the record to be queried.
wchar_t pOwnerName[255]; //Owner name to be queried.
wchar_t pReversedIP[255]; //Reversed IP address.
wchar_t DnsServIp[255]; //DNS server ip address.
DNS_FREE_TYPE freetype ;
freetype = DnsFreeRecordListDeep;
IN_ADDR ipaddr;
char * chOwnerName = NULL;

if(argc > 4) {
for(int i = 1; i < argc ; i++) {
if ( (argv[i][0] == '-') || (argv[i][0] == '/') ) {
switch(tolower(argv[i][1])) {
case 'n':
//pOwnername=
chOwnerName = argv[++i];
Char2Wchar(chOwnerName, (wchar_t *) pOwnerName);
break;
case 't':
if (!stricmp(argv[i+1], "A") )
wType = DNS_TYPE_A; //Query host records to resolve a name.
else if (!stricmp(argv[i+1], "PTR") )
{
//pOwnerName should be in "xxx.xxx.xxx.xxx" format
if(wcslen(pOwnerName)<=15)
{
//You must reverse the IP address to request a Reverse Lookup
//of a host name.
swprintf(pReversedIP,L"%s",pOwnerName);
ReverseIP(pReversedIP);
size_t sizeRev = wcslen(pReversedIP) + 1;
wcsncpy_s(pOwnerName, sizeRev, pOwnerName, 255);
//pOwnerName=pReversedIP;
wType = DNS_TYPE_PTR; //Query PTR records to resolve an IP address
}
else
{
Usage(argv[0]);
}
}
else
Usage(argv[0]);
i++;
break;

case 's':
// Allocate memory for IP4_ARRAY structure.
pSrvList = (PIP4_ARRAY) LocalAlloc(LPTR,sizeof(IP4_ARRAY));
if(!pSrvList){
printf("Memory allocation failed \n");
exit(1);
}
if(argv[++i]) {
wchar_t aarray[300];
Char2Wchar(argv[i], (wchar_t*)aarray);
wcscpy(DnsServIp,aarray);
char tmp[500];

pSrvList->AddrCount = 1;
pSrvList->AddrArray[0] = inet_addr(WChar2char(DnsServIp, (char*) tmp)); //DNS server IP address
break;
}

default:
Usage(argv[0]);
break;
}
}
else
Usage(argv[0]);
}
}
else
Usage(argv[0]);

// Calling function DnsQuery to query Host or PTR records
status = DnsQuery(pOwnerName, //Pointer to OwnerName.
wType, //Type of the record to be queried.
DNS_QUERY_BYPASS_CACHE, // Bypasses the resolver cache on the lookup.
pSrvList, //Contains DNS server IP address.
&pDnsRecord, //Resource record that contains the response.
NULL); //Reserved for future use.

if (status){
if(wType == DNS_TYPE_A)
printf("Failed to query the host record for %s and the error is %d \n", pOwnerName, status);
else
printf("Failed to query the PTR record and the error is %d \n", status);
} else {
if(wType == DNS_TYPE_A) {
//convert the Internet network address into a string
//in Internet standard dotted format.
ipaddr.S_un.S_addr = (pDnsRecord->Data.A.IpAddress);
printf("The IP address of the host %s is %s \n", pOwnerName,inet_ntoa(ipaddr));

// Free memory allocated for DNS records.
DnsRecordListFree(pDnsRecord, freetype);
}
else {
printf("The host name is %s \n",(pDnsRecord->Data.PTR.pNameHost));

// Free memory allocated for DNS records.
DnsRecordListFree(pDnsRecord, freetype);
}
}
LocalFree(pSrvList);
}




(keywords: DNS, DnsQuery, Windows Server 2008 R2 )

Tuesday, September 29, 2009

Pós-modernismo & teologia na América Latina

Teologia Prática e práticas pastorais na América Latina
(capítulo 5)

Danilo R. Streck escreve:
"Enrique Dussel propõe o conceito 'transmodernidade' para caracterizar a necessidade de se avançar para além da modernidade, valorizando o seu núcleo racional potencialmente libertador, mas questionando o 'mito irracional' moderno que legitimou a conquista européia. Luís Britto García vê o pós-moderno latino-americano como 'contramoderno', neste sentido já presente na história latino-americana desde Bartolomeu de las Casas e outros que defendiam a causa dos pobres e fracos. "
" ... carta do 8o Encontro Intereclesial de CEBs, em 1992:
'Nestes dias refletimos sobre os últimos 500 anos da história do Continente, e constatamos que foram um longo cativeiro, mais longo que o cativeiro da Babilônia. Os opressores diziam que nossos deuses eram falsos; nossos ritos, superstição; nossos mitos, heresia; nossos costumes, pecado. As mulheres continuam sendo tratadas como objetos. Fomos espancados e marginalizados, e fizeram de nós um povo de migrantes. [...]'
"
"O fato é que a modernidade européia não é alheia à nossa história, uma vez que em grande parte foi construída sobre a exploração do novo mundo 'descoberto'. Em outras palavras, a América Latina, de diferentes formas através de sua história, sofreu a modernidade."
"A ambigüidade é apontada por Alberto Moreira como um traço que caracteriza todo o processo de modernidade. Ele pergunta: 'Por que a Modernidade, tendo nascido de ideais tão nobres como liberdade, igualdade e fraternidade, conduziu às aberrações mais anti-humanas que já conheceu a história?' Para ele, essas aberrações não são uma conseqüência necessária da modernidade. Pelo contrário, seria possível ver nascer um novo perfil de humanidade a partir dessas contradições ou ambigüidades, só que através dos setores excluídos ou marginalizados do proceso."

Teoria e prática na comunidade

"De um lado, a edificação da comunidade é, primordialmente, um assunto da práxis eclesial; ela está relacionada com a concretização e a vivência da fé no mundo. É mais prática do que reflexão teórica. Por outro lado, nenhuma prática pode prescindir de uma sólida fundamentação teórica. Assim como toda teoria só levará a uma boa prática quando tiver o seu ponto de partida numa prática sobre a qual se teoriza com vistas a uma nova prática, da mesma forma toda prática só trará frutos e será condizente com seus fundamentos se estiver fundamentada numa sólida teoria. Por isso toda proposta de edificação de comunidade deve ter uma solidez teológica comprovada e, por sua vez, toda reflexão teológica sólida não pode prescindir de incluir a edificação da comunidade no âmbito de sua reflexão. "

Martin Volkmann
Capítulo 8: "Edificação de comunidade"
Teologia Prática no Contexto da América Latina
Editora Sinodal

Monday, September 28, 2009

Traduzindo a Conversa Emergente para Português - VII

Estou gostando muito de ler o livro "Teologia Prática no Contexto da América Latina", editado por Christoph Schneider-Harpprecht, da editora ASTE. Há mais de 10 anos atrás os Luteranos já levavam a sério, pelo menos nos círculos acadêmicos, teologia no pós-modernismo e o contexto brasileiro.
A pergunta motivadora para este post seria: "conversa emergente só se aplica à América do Norte?" A resposta seria "Não. Ela se aplica também à América Latina."
Se nós pensarmos no modernismo numa perspectiva histórica e econômica na América Latina, indentificaremos os mesmos males que afligem a América do Norte oriundos do mesmo modernismo. A ganância motivada pelo acúmulo de bens, a fé em um novo deus - o Mercado, a fabricação de necessidades falsas pelo marketing, a tecnologia a serviço da destruição e das desigualdades sociais, modelos exploradores de empresas, poder político como rolo-compressor e por aí vai.

Saturday, September 26, 2009

A ética da manutenção de Ariovaldo Ramos

Ontem ouvi o pastor Ariovaldo Ramos falar sobre sua "ética da manutenção". Os teólogos-filósofos conseguem descrever a coisa do jeito deles. A mim cabe pensar com meus botões. (no resumo do resumo, esta ética vê Deus mantendo o mundo e o crente é co-participante)
O diálogo é quase impossível. As perguntas não têm o tempo e o ambiente adequados para discussões em altura equitável. Resta-me, portanto, o monólogo. Falo para as paredes.
De forma geral gostei da idéia. Minha intuição filosófica (aquela mais sistematizada que briga de feira) sentiu falta de uma boa dose de pessimismo e nihilismo. Quando tudo é muito lógico, tudo se encaixa e faz muito sentido o não-santo desconfia.
A tal ética foi apresentada como um princípio cristão. Parte do meu problema é achar que tal princípio ético está muito perto do lugar-comum. Tudo bem, o princípio ético aponta para a preservação da vida. Mas não diria a mesma coisa qualquer ética não-nihilista?
Um outro detalhe menor: Ariovaldo Ramos faz uma distinção entre a força mantenedora e o resgate divino. Fico me perguntando se a atuação mantenedora divina não é também a mesma atuação salvífica. Realmente estou esperando um cristão aventurar uma boa explicação sobre "salvação".

Thursday, September 24, 2009

Histórias Verídicas do Pajé Raoni - 7 - De Médico e de Louco

Essa histórica verídica foi presenciada por minha tia-avó.
Minha tia-avó se chamava Débora. Débora era irmã da minha avó paterna. Ela era membro de uma grande igreja batista no estado do Rio de Janeiro, do Pr. Panini *. Disse a minha tia-avó que na congregação havia um sêmen-narista. Pois bem, este sêmen-narista e a filha do pastor fornicaram e ela engravidou. Pois bem, o Pr. Panini arranjou para a filha fazer um aborto e o sêmen-narista saiu da igreja. Foi para Cachoeiras de Macacu.
Em uma certa sessão nessa igreja de Niterói, eis que se levanta um médico. Era o médico que havia feito o aborto. Com dor de consciência, quis se confessar e relatou o ocorrido pedindo o perdão da igreja. Eis que o pastor então diz que aquilo tudo é um absurdo, e chama uma ambulância para prender o médico louco. Chega a ambulância. Os enfermeiros põem uma camisa de força no médico na própria igreja e o levam embora.

(* Nomes marcados foram trocados nesse relato )

Friday, September 18, 2009

Notas de Rodapé - Entrevista com Marta Pelloni

Estou ouvindo à entrevista de Marta Pelloni, Profesora de Filosofia e Pedagogia e Freira. A entrevista em áudio se encontra no site da Monja Guerrillera.
Pelloni fala que "os padres não sabem trabalhar em equipe" ... "por que não os formam ... os formam para pároco, e o pároco vive sozinho".
Muito interessante. E seria diferente da formação dos pastores no Brasil? Afinal, lidar com o outro é essencial para um pastor.
Lembro-me de uma information session que tive sobre o curso de MBA. Era um curso excelente. Formava profissionais excelentes. Um dia o coordenador do curso recebeu um telefonema de uma empresa onde trabalhava um ex-aluno de MBA. Disseram que ele era muito bom, mas só tinha um problema: ele não conseguia se relacionar com as pessoas. Ele não conseguia trabalhar em grupo e colaborar. A partir de então, eles mudaram o currículo do curso de MBA. Na primeira metade inteira o curso é feito em grupo. As notas têm grande peso para o grupo. A pessoa tem que aprender a colaborar.
Sinto falta de líderes que saibam se colocar no lugar do outro e da outra.